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Bordeaux, 16 de março de 1822. A menina que nasce ali é a mais velha de quatro filhos, e o pai, Raymond Bonheur, é pintor de paisagem e professor de desenho.
O pai segue o sansimonismo, corrente que pregava igualdade entre homens e mulheres. A filha cresce ouvindo que talento não tem sexo e que ofício se aprende na bancada, não no salão.
A mãe, Sophie, dá aula de piano e a família a perde em 1833, quando a menina tem onze anos, com a casa apertada e mudando de endereço atrás de aluguel barato.
Aos catorze anos ela se registra como copista no Louvre. Passa os dias diante dos flamengos e dos holandeses de animal, e os colegas homens da sala a apelidam de pequeno hussardo.
A formação continua fora do museu. Ela estuda anatomia nos abatedouros de Paris e na Escola Veterinária de Alfort, dissecando membros para entender como o músculo se prende ao osso.
Em 1848 ela leva a medalha de primeira classe do Salão. No ano seguinte apresenta Labourage nivernais, encomenda do Estado com bois puxando arado, e a reputação dela atravessa a fronteira.
Em 1851 começa o trabalho de campo do quadro grande. Duas vezes por semana ela vai ao mercado de cavalos do boulevard de l'Hôpital e desenha os animais em movimento, sem pose.
Uma mulher de saia parada entre os tratadores virava atração imediata, e atração parada no meio da roda não desenha coisa nenhuma.
A saída foi a roupa. De blusão, calça e cabelo curto, ela passava por um rapaz magro e conseguia ficar horas na calçada sem ninguém interromper a página do caderno.
A roupa, por sua vez, exigia papel. A ordenança de 1800 da polícia de Paris obrigava toda mulher que quisesse se vestir de homem a pedir autorização na prefeitura, com atestado médico junto.
A licença dela valia seis meses e era renovada. O documento vinha com restrição escrita: a roupa masculina não podia ser usada em teatro, baile nem reunião pública, só no trabalho.
Depois da calçada veio o ateliê da rue d'Assas, onde ela montou a tela de cinco metros e transferiu os estudos para a composição final.
A obra entra no Salão de 1853 com o título Le Marché aux chevaux. Ela oferece o quadro à cidade natal, Bordeaux, por um preço abaixo do mercado, e a oferta é recusada.
Em 1855 o negociante belga Ernest Gambart compra a tela por 40 mil francos, com os direitos de reprodução. Ele encomenda a gravura a Charles George Lewis e leva a pintura para Londres.
Na temporada inglesa a tela é levada ao Palácio de Buckingham para uma exibição particular à rainha Vitória. Uma versão reduzida, pintada em 1855 para servir de modelo ao gravador, está hoje na National Gallery de Londres.
Depois a pintura atravessa o Atlântico e roda cidades americanas como atração paga. Em 1887, num leilão em Nova York, Cornelius Vanderbilt paga 53 mil dólares e doa a tela ao Metropolitan, onde ela continua pendurada.
Em 1865 a imperatriz Eugénie foi em pessoa até a casa dela, em By, e entregou a cruz da Legião de Honra. Era a primeira artista mulher condecorada na França.
Ela ficou no mesmo endereço até 1899, cercada de cavalos, veados e dois leões, pintando animais até os 77 anos.
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