In partnership with

Arte do Dia   Arte do Dia
ED 118

A Feira de Cavalos

Rosa Bonheur · 1852-1855 · Óleo sobre tela

A Feira de Cavalos

Percherons em disparada no boulevard de l'Hôpital

▼

Duas vezes por semana, entre 1851 e 1853, uma mulher de cabelo curto descia o boulevard de l'Hôpital, em Paris, de blusão, calça larga e caderno de desenho debaixo do braço. Ninguém no mercado de cavalos olhava duas vezes para ela, e era exatamente o combinado.

No bolso ela carregava um papel timbrado da prefeitura de polícia. A autorização permitia que uma mulher circulasse pela cidade vestida de homem, valia seis meses e precisava ser renovada com atestado médico anexo.

O documento existia porque uma ordenança de 1800 obrigava qualquer parisiense a pedir licença antes de usar a roupa do outro sexo. Sem aquele papel no bolso, a pintora não conseguia passar horas parada no meio dos tratadores sem virar assunto da roda.

O mercado acontecia ali mesmo, no calçadão arborizado que descia até o hospital da Salpêtrière. Chegavam percherons de tração pesada, animais de carroça e cavalos de aluguel, puxados em fila no trote para o comprador julgar o andamento de cada um.

Era negócio de gente do ramo. Tratador, carroceiro, negociante e fazendeiro mediam garupa, casco e fôlego no meio da poeira, e ninguém abria espaço para curioso parado no caminho.

Ela ficou um ano e meio naquela calçada, com o caderno aberto e o lápis andando rápido. Depois levou o material para o ateliê e o transferiu para uma tela do tamanho de uma parede de sala, formato que na época era reservado a batalha, coroação e cena bíblica.

O que saiu de lá dispensou general, santo e bandeira. Sobrou uma coluna de cavalos de trabalho atravessando a tela inteira em disparada, com homens pendurados nas rédeas tentando segurar o peso dos bichos.

A leitura começa pelo que está pintado: o percurso que a fila de animais faz dentro do quadro, do fundo até a borda, e o detalhe de arquitetura que entrega o endereço exato da cena.

Continue lendo ↓

 
 

I  O Que Você Vê

Percherons em arco, sob a poeira do boulevard

Dois metros e quarenta e cinco de altura por cinco metros e sete de largura, óleo sobre tela. É a maior pintura que ela assinou, em formato horizontal, largo como um friso de templo.

A cena é um mercado de cavalos ao ar livre. Os animais entram pela esquerda, lá no fundo, e vêm crescendo em direção à frente da tela até quase saltarem para fora da moldura, do lado direito.

São cavalos de tração. Percherons de garupa larga, pescoço grosso e crina aparada rente, o tipo pesado que puxava carroça, ônibus urbano e peça de artilharia no século XIX.

No centro, um animal empina. Dois tratadores se penduram nas rédeas com o corpo inteiro jogado para trás, e o esforço da dupla vira o ponto mais alto da composição.

Os homens usam blusão azul e boné de trabalho. O azul deles é a única cor forte da tela e funciona como sinalização, marcando de mancha em mancha o caminho que a fila faz.

Um cavaleiro montado aparece no meio da confusão, de casaco escuro e chapéu de aba. Boa parte da fortuna crítica lê a figura como um autorretrato da pintora, colocada dentro da própria cena.

O chão está revolvido. A areia batida do calçadão sobe em poeira clara até a altura do peito dos animais e apaga os contornos da metade de baixo do quadro.

À esquerda, no fundo, uma fileira de árvores altas marca a linha reta do boulevard. Entre a copa das árvores e o céu aparece uma cúpula redonda, com lanternim no topo.

A cúpula não é enfeite de paisagem. É a capela do hospital da Salpêtrière, e a presença dela fixa o endereço do quadro no boulevard de l'Hôpital, em Paris, sem precisar de legenda.

O céu ocupa o terço de cima, carregado, com nuvem cinza e uma abertura clara à esquerda. A luz entra por aquele lado e bate em cheio no flanco dos dois cavalos brancos.

A paleta é de terra. Marrom, cinza, ocre e preto, com o branco desses dois animais funcionando como pausa no meio da massa escura que ocupa o centro.

Não há rosto em primeiro plano. As figuras humanas dividem o espaço com os bichos, e nenhuma delas procura o olho de quem está do lado de fora da tela.

O acabamento muda conforme o assunto. Tendão, casco, veia saltada e músculo do peito estão pintados com precisão de manual de anatomia, enquanto o fundo se dissolve em mancha solta.

O quadro não mostra corrida nem batalha. Mostra o instante em que um animal de trabalho é apresentado ao comprador, no trote, para ele medir o porte e conferir se o passo é firme.

Fui obrigada a reconhecer que a roupa do meu sexo era um estorvo constante. Foi por essa razão que decidi pedir à prefeitura de polícia a autorização para me vestir de homem.

Rosa Bonheur, em Rosa Bonheur: sa vie, son œuvre, de Anna Klumpke, 1908

 
 

II  A História Por Trás

O alvará de polícia renovado a cada seis meses

Bordeaux, 16 de março de 1822. A menina que nasce ali é a mais velha de quatro filhos, e o pai, Raymond Bonheur, é pintor de paisagem e professor de desenho.

O pai segue o sansimonismo, corrente que pregava igualdade entre homens e mulheres. A filha cresce ouvindo que talento não tem sexo e que ofício se aprende na bancada, não no salão.

A mãe, Sophie, dá aula de piano e a família a perde em 1833, quando a menina tem onze anos, com a casa apertada e mudando de endereço atrás de aluguel barato.

Aos catorze anos ela se registra como copista no Louvre. Passa os dias diante dos flamengos e dos holandeses de animal, e os colegas homens da sala a apelidam de pequeno hussardo.

A formação continua fora do museu. Ela estuda anatomia nos abatedouros de Paris e na Escola Veterinária de Alfort, dissecando membros para entender como o músculo se prende ao osso.

Em 1848 ela leva a medalha de primeira classe do Salão. No ano seguinte apresenta Labourage nivernais, encomenda do Estado com bois puxando arado, e a reputação dela atravessa a fronteira.

Em 1851 começa o trabalho de campo do quadro grande. Duas vezes por semana ela vai ao mercado de cavalos do boulevard de l'Hôpital e desenha os animais em movimento, sem pose.

Uma mulher de saia parada entre os tratadores virava atração imediata, e atração parada no meio da roda não desenha coisa nenhuma.

A saída foi a roupa. De blusão, calça e cabelo curto, ela passava por um rapaz magro e conseguia ficar horas na calçada sem ninguém interromper a página do caderno.

A roupa, por sua vez, exigia papel. A ordenança de 1800 da polícia de Paris obrigava toda mulher que quisesse se vestir de homem a pedir autorização na prefeitura, com atestado médico junto.

A licença dela valia seis meses e era renovada. O documento vinha com restrição escrita: a roupa masculina não podia ser usada em teatro, baile nem reunião pública, só no trabalho.

Depois da calçada veio o ateliê da rue d'Assas, onde ela montou a tela de cinco metros e transferiu os estudos para a composição final.

A obra entra no Salão de 1853 com o título Le Marché aux chevaux. Ela oferece o quadro à cidade natal, Bordeaux, por um preço abaixo do mercado, e a oferta é recusada.

Em 1855 o negociante belga Ernest Gambart compra a tela por 40 mil francos, com os direitos de reprodução. Ele encomenda a gravura a Charles George Lewis e leva a pintura para Londres.

Na temporada inglesa a tela é levada ao Palácio de Buckingham para uma exibição particular à rainha Vitória. Uma versão reduzida, pintada em 1855 para servir de modelo ao gravador, está hoje na National Gallery de Londres.

Depois a pintura atravessa o Atlântico e roda cidades americanas como atração paga. Em 1887, num leilão em Nova York, Cornelius Vanderbilt paga 53 mil dólares e doa a tela ao Metropolitan, onde ela continua pendurada.

Em 1865 a imperatriz Eugénie foi em pessoa até a casa dela, em By, e entregou a cruz da Legião de Honra. Era a primeira artista mulher condecorada na França.

Ela ficou no mesmo endereço até 1899, cercada de cavalos, veados e dois leões, pintando animais até os 77 anos.

 
 

Quem banca a edição de hoje

Make Your Clients Famous

Your clients don’t care how many databases you searched. They care about credible appearances, visible momentum, and results they can show leadership.

PodPitch finds the right shows for every client, studies what each host cares about, writes personalized outreach, sends it from your team’s inbox, and follows up until interviews land.

PR and communications teams use PodPitch to create more authority, more client content, stronger search visibility, and better renewals without adding researchers or coordinators.

Only 12 PR team demo spots are available this month. When they’re gone, registration closes.

Book more interviews. Prove your value. Give every client another powerful reason to renew.

O clique de apoio mantém a edição gratuita

III  Por Que Importa

Um mercado comum pintado em escala de batalha

Importa pela escala. Cinco metros de largura era medida de pintura de história, gênero reservado a coroação, batalha e episódio bíblico, e ela gastou a medida inteira num mercado de bairro.

Importa porque a tela não tem protagonista. O centro é ocupado por uma massa de animais em movimento, sem figura iluminada sozinha e sem gesto de comando apontando o horizonte.

Importa pelo método. A cena veio de um ano e meio de calçada, duas vezes por semana, com caderno na mão, e não da memória de um ateliê fechado com modelo contratado.

Importa pelo pedaço de papel. O que separava a pintora do material bruto não era técnica nem repertório, era acesso, e o acesso dependia de uma assinatura de delegado.

Importa pela data em que o papel deixou de valer. A ordenança de 1800 seguiu formalmente nos arquivos franceses até 31 de janeiro de 2013, quando o ministério dos Direitos das Mulheres a declarou sem efeito.

Importa pelo animal retratado. O percheron era motor: puxava ônibus urbano, carroça de carga, arado e artilharia, e uma cidade como a Paris do século XIX andava sobre casco.

Importa pelo que o mercado representa. A cena mostra o momento exato em que o motor troca de dono, com o vendedor exibindo o andamento e o comprador de olho no porte e no jarrete.

Importa pela reprodução. A gravura de Charles George Lewis espalhou a imagem por sala de visita e parede de escola na Inglaterra e nos Estados Unidos, muito além de quem viu a tela de perto.

Importa pelo tamanho da fama que veio depois. Ela virou a pintora mais conhecida do século, com nome vendendo estampa, e a assinatura no canto da tela passou a valer sozinha no comércio de arte.

Importa pelo caminho do quadro. Recusado pela cidade natal, comprado por um negociante, exibido como atração paga em turnê e finalmente doado a um museu público de Nova York.

Importa porque a pintura não argumenta nada. No lugar de alegoria e de legenda moral, ela entrega cavalo, homem, poeira e um dia de trabalho pintado em tamanho de altar.

Diante da obra, comece pela esquerda, no fundo, onde a fila entra sob as árvores. Siga a diagonal até o animal que empina no centro, desça para o blusão azul dos tratadores e termine na cúpula que fecha o horizonte.

Olhe com calma.

 
 
Guia Arte do Dia · Novo
Capa do guia Os Símbolos Escondidos nas Obras-Primas

Os Símbolos Escondidos nas Obras-Primas

Enxergue nas obras-primas o que 99% dos visitantes de museu passam batido.

Quero o guia →
 
Quiz da edição

Segundo o texto, por quanto tempo valia a autorização que Rosa Bonheur carregava no bolso para se vestir de homem?

AUm ano, sem necessidade de renovação
BSeis meses, renovada com atestado médico
CTrês meses, renovada por carta do pai
DVitalícia, emitida uma única vez

Resultado da última edição: 67% acertaram.

Defenda seu título de {{titulo_quiz | Esboçista (3 acertos seguidos garantem o primeiro)}}.

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
Sua avaliação

Como foi a edição de hoje?

🖼️🖼️🖼️🖼️🖼️  ótima 🖼️🖼️🖼️🖼️  boa 🖼️🖼️🖼️  ok 🖼️🖼️  ruim 🖼️  péssima
 
Recomendação de Newsletter
Mitologia do Dia

🏛️ Mitologia do Dia

Todo dia, 12:12. Um mito grego virado do avesso: o padrão que ele descreve, e onde ele aparece em você.

Quero receber →

 
Sua jornada
Nível {{nivel | 0}} · {{rank_nome | Visitante}} {{xp | 0}} XP
 

Faltam {{xp_falta | 5}} XP pro Nível {{nivel_prox | 1}}

Responda o quiz de hoje: +3 XP

{{edicoes_lidas | 1}}
edições lidas
{{cliques | 0}}
cliques
{{avaliacoes_feitas | 0}}
avaliações

Top {{top_pct | 100}}%: posição {{pos_mes | 0}} na comunidade Arte do Dia nesse mês

Quero subir meu nível →

 

Olhe com calma. Ars longa, vita brevis.

ARTE DO DIA

Olhe com calma

💬 WhatsApp·📣 Anuncie·✍️ Crie sua Newsletter