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Bisões de Altamira: o teto acusado de fraude

Bisões de Altamira, Grande Teto dos Policromos, cerca de 14.000 anos, ocre e carvão, Santillana del Mar, Cantábria

Bisão pintado em ocre vermelho e carvão no teto da gruta de Altamira, na Cantábria

Bisão do teto de Altamira, cerca de 14 mil anos

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Um bisão de cerca de 1,5 metro de comprimento, pintado com ocre vermelho (terra rica em óxido de ferro) e contornado a carvão sobre um calombo natural da rocha. A barriga redonda do bicho é a própria curva da pedra, e prova que o pintor escolheu o lugar antes de escolher a tinta.

Ele fica no teto de uma gruta em Altamira, no município de Santillana del Mar, na Cantábria, norte da Espanha, ao lado de mais de uma dezena de outros bisões, cavalos e uma corça. O teto é baixo: em alguns pontos, um adulto toca a pedra com a mão levantada.

Quem tornou esse teto público foi Marcelino Sanz de Sautuola, advogado e proprietário de terras em Santander, apaixonado por pré-história. Em 1879 ele escavava o chão da gruta atrás de ossos e ferramentas de pedra, à luz de uma lamparina, quando a filha María, de 8 anos, entrou na sala lateral e olhou para cima.

Os bisões estavam ali havia milhares de anos. A entrada da gruta tinha desabado num tempo remoto e selado o ar lá dentro, o que conservou as cores. Um caçador da região, Modesto Cubillas, achara a boca da caverna por volta de 1868, ao soltar o cachorro preso entre as pedras, mas ninguém tinha reparado nas pinturas.

Sautuola comparou os bisões com objetos pré-históricos que vira na Exposição Universal de Paris de 1878 e concluiu que eram da mesma época. Em 1880, publicou um folheto com desenhos do teto e a tese de que aquilo era arte da Idade da Pedra.

A resposta dos especialistas foi a suspeita. As figuras eram bonitas demais, frescas demais e grandes demais para caçadores primitivos, diziam. A acusação mais dura afirmava que o próprio Sautuola pagara um pintor para fazer tudo.

Ele morreu em 1888 sem ver a tese aceita, e a defesa só veio catorze anos depois, de quem mais tinha duvidado. Antes do processo, vale olhar o teto como ele aparece na imagem desta edição.

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I  O Que Você Vê

Ocre, carvão e pedra viva

A resposta de ontem

Quem bateu a pá no primeiro soldado de terracota, em 1974?

Foi Yang Zhifa, agricultor da aldeia de Xiyang, que cavava um poço com os irmãos e vizinhos durante a seca de 1974. Recebeu do governo uma recompensa modesta e, décadas depois, começou a autografar livros na loja do Museu do Mausoléu de Qin Shi Huang, em Lintong, ao lado das covas que ajudou a achar.

Na imagem, um bisão aparece de perfil, com o corpo cheio em tons de vermelho e castanho. O contorno, a crina e a cabeça estão marcados em preto, sobre uma rocha clara de superfície irregular.

No alto do desenho ficam os chifres curtos e a giba (a corcova alta sobre os ombros do animal). As patas são finas em comparação com o tronco, e o peso inteiro do bicho parece concentrado na frente, como nos bisões vivos.

A pintura divide o teto com dezenas de outras figuras. O Museu Nacional e Centro de Pesquisa de Altamira descreve o Grande Teto dos Policromos (policromo quer dizer de várias cores) como uma superfície de cerca de 18 metros por 9, coberta de animais, sinais e mãos.

Três tintas e uma lâmina

As cores vêm de três materiais. O vermelho e o castanho saem do ocre, moído e misturado com água. O preto sai do carvão de lenha queimada e do óxido de manganês, um mineral escuro.

Os pintores trabalhavam em camadas. Primeiro o contorno preto, depois o preenchimento vermelho, espalhado com os dedos, com tufos de pelo ou soprado pela boca. Por fim, uma ponta de pedra raspava a tinta e a rocha para abrir linhas claras: o olho, a dobra da pele, o pelo do pescoço.

Essa raspagem dá ao bisão um brilho que a tinta sozinha não teria. A pedra clara aparece por baixo e funciona como luz.

O relevo do teto

Vários bisões do teto estão encolhidos, com as patas dobradas sob a barriga e a cabeça baixa. Eles foram pintados em cima de calombos arredondados da rocha, e o volume da pedra faz o volume do corpo.

Quem olha de baixo, com uma chama tremendo, vê o relevo mexer. A luz de uma lamparina de gordura animal, a mesma que os pintores usavam, faz as sombras dos calombos avançarem e recuarem sobre os bichos.

A medida do bisão

Os animais do teto são grandes. Alguns passam de 1,5 metro de comprimento, e o tamanho pesou contra Sautuola: parecia impossível que alguém tivesse pintado tão bem deitado no chão ou de joelhos, num teto tão baixo.

Hoje se sabe que o chão era mais fundo no tempo dos pintores. Sedimentos se acumularam durante milênios e aproximaram o piso do teto, o que deixou a sala mais apertada do que era.

 
 

II  A História Por Trás

O processo contra Sautuola

O folheto de 1880 se chamava Breves apuntes sobre algunos objetos prehistóricos de la provincia de Santander (Breves notas sobre alguns objetos pré-históricos da província de Santander). Trazia desenhos do teto e a tese de que as pinturas tinham a idade dos ossos e das ferramentas achados no chão.

O primeiro a apoiar Sautuola foi Juan Vilanova y Piera, geólogo e professor da Universidade de Madri. Ele visitou a gruta, viu as pinturas e passou a defendê-las em conferências na Espanha e fora dela.

O congresso de Lisboa

Em 1880, o Congresso Internacional de Antropologia e Arqueologia Pré-Históricas reuniu em Lisboa os nomes mais fortes da área. Vilanova levou o caso de Altamira. A plateia não aceitou, e nenhum dos congressistas foi à Cantábria conferir.

O líder dos céticos era o francês Émile Cartailhac, editor de revistas de pré-história e uma das vozes mais ouvidas do assunto. Para ele, homens da Idade da Pedra não tinham técnica para pintar animais daquele tamanho, com sombra e volume.

Em 1881, o engenheiro francês Édouard Harlé visitou a gruta e escreveu um relatório. Concluiu que as pinturas eram recentes, feitas entre a primeira visita de Sautuola, em 1875, e a descoberta de 1879.

O pintor da casa

A suspeita ganhou um rosto. Paul Ratier, pintor francês que se hospedava na casa da família e fizera cópias do teto para o folheto, foi apontado como o autor dos bisões.

A acusação dizia que Sautuola contratara Ratier para inventar uma descoberta e ganhar fama entre os sábios. Nunca apareceu prova disso, mas a dúvida bastou para afastar o advogado de Santander dos congressos.

Sautuola morreu em 1888, aos 57 anos, sem que a ciência aceitasse a idade das figuras. Vilanova seguiu a defesa sozinho e morreu em 1893, também sem ver o reconhecimento.

O mea culpa

A mudança veio da França. Em 1895 apareceram gravuras na gruta de La Mouthe e, em 1901, pinturas e gravuras em Combarelles e Font-de-Gaume, na Dordonha. Algumas estavam cobertas por crostas de calcita (o mineral que pinga das paredes e endurece), o que provava que tinham sido feitas muito antes de qualquer visitante moderno.

Cartailhac entendeu o erro. Em 1902, publicou na revista L'Anthropologie o artigo “Les cavernes ornées de dessins. La grotte d'Altamira, Espagne. Mea culpa d'un sceptique” (As cavernas decoradas com desenhos. A gruta de Altamira, Espanha. Minha culpa de um cético).

No mesmo ano, foi a Altamira com o jovem padre Henri Breuil, que passou semanas copiando o teto deitado no chão. Lá, Cartailhac conheceu María, já adulta, e pediu desculpas à família pelo pai que não estava mais vivo para ouvir.

 

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III  Por Que Importa

Os 14 mil anos medidos no carvão

A idade dos bisões deixou de ser opinião no fim do século 20. Em 1992, a física francesa Hélène Valladas e sua equipe publicaram na revista Nature datações por radiocarbono (a medida do carbono que se desfaz num ritmo conhecido) do carvão de bisões pretos de Altamira. O resultado ficou em torno de 14 mil anos.

Em 2012, uma equipe liderada por Alistair Pike, da Universidade de Bristol, publicou na revista Science a datação de crostas de calcita sobre sinais pintados no teto. Um sinal vermelho de Altamira tinha mais de 35.600 anos, o que põe a gruta em uso muito antes dos bisões.

O teto, portanto, foi feito em etapas, por gerações distantes milênios umas das outras. Os bisões policromos são a camada mais nova, do período chamado Magdaleniano.

O ar dos visitantes

A fama que faltou a Sautuola chegou depois, e com ela o perigo. Nas décadas de 1960 e 1970, multidões desceram ao teto, e o calor dos corpos, o gás carbônico da respiração e a umidade começaram a atacar a pintura.

A gruta foi fechada em 1977. Reabriu em 1982 com visitas limitadas e voltou a fechar em 2002, quando manchas verdes de microrganismos apareceram nas paredes.

Em 2001, o museu abriu ao lado a Neocueva, uma réplica do teto em tamanho real, feita com os mesmos pigmentos sobre um molde da rocha. É ela que a maioria dos visitantes vê hoje.

O sorteio das sextas

De 2014 a 2020, o museu sorteou cinco visitantes por semana para entrar na gruta original, vestidos com macacão, máscara e sapatilha; hoje as cinco vagas semanais saem de uma lista de espera. A visita dura poucos minutos e faz parte de um estudo sobre o efeito da presença humana no teto.

A Unesco pôs Altamira na lista do Patrimônio Mundial em 1985, e em 2008 estendeu o título a outras 17 grutas pintadas do norte da Espanha. O teto que custou a reputação de Sautuola virou a referência para todas elas.

O teto e a cópia

A decisão sobre Altamira continua aberta entre os conservadores: abrir a gruta a cinco pessoas por semana e aceitar o risco do fungo e do calor, ou trancar o teto de vez e mostrar ao público só a cópia da Neocueva. As duas escolhas estão acima.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

O que a menina María disse ao pai quando viu os bisões no teto, em 1879?

★ RARO

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EDIÇÃO SELADA

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Quiz da edição

Segundo o texto, quem assinou em 1902 o artigo intitulado Mea culpa de um cético?

AÉdouard Harlé, o engenheiro que inspecionou a gruta em 1881
BÉmile Cartailhac, o editor francês que liderava os céticos
CJuan Vilanova y Piera, o geólogo que apoiou Sautuola
DMarcelino Sanz de Sautuola, o advogado que achou o teto

Resultado da última edição: 78% acertaram.

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