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Batistério de São Luís: a bacia mameluca dos reis

Batistério de São Luís, cerca de 1330, latão com prata e ouro, Egito ou Síria mameluca, Museu do Louvre, Paris

Bacia mameluca de latão com figuras de prata e ouro, o Batistério de São Luís, Museu do Louvre

Batistério de São Luís, Cairo, cerca de 1330

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Uma bacia de latão martelado com 50 centímetros de diâmetro e 23 de altura, coberta por dentro e por fora de figuras incrustadas em prata e ouro. Ela prova que um artesão muçulmano do século 14 assinou o objeto mais cristão da coroa francesa.

A peça saiu de uma oficina do sultanato mameluco, o Estado que governava o Egito e a Síria a partir do Cairo entre 1250 e 1517. Os mamelucos eram soldados comprados ainda meninos nas estepes do mar Negro, treinados como cavaleiros e libertados adultos, até tomarem o trono dos senhores que os compraram.

O latão foi batido a martelo a partir de uma chapa só, e depois o artesão cavou na superfície os sulcos das figuras. Dentro de cada sulco, ele assentou fios e lâminas finas de prata e de ouro, pressionados até ficarem presos no metal mais duro.

O fundo ficava preto, preenchido por uma pasta escura de resina. Sobre esse fundo, as figuras de prata brilhavam como recortes de luz, e a bacia inteira se lia de longe como uma procissão.

Ninguém sabe quem encomendou a peça nem como ela atravessou o Mediterrâneo. O primeiro registro firme dela na França aparece no tesouro da Sainte-Chapelle de Vincennes, a capela do castelo real a leste de Paris.

Em 1606, ela recebeu a água do batismo do futuro rei Luís XIII, em Fontainebleau. Duzentos e cinquenta anos depois, em 1856, voltou a servir no batismo do filho de Napoleão III, o príncipe imperial.

O nome que ela carrega hoje homenageia Luís IX, o rei santo que comandou duas cruzadas contra os sultões do Egito e de Túnis e não voltou da segunda, em 1270. A bacia foi feita sessenta anos depois dele.

Para entender como um objeto do inimigo virou relíquia de família, vale começar pelo que está gravado no metal.

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I  O Que Você Vê

Uma procissão de prata no latão

Do lado de fora, a bacia tem uma faixa larga que dá a volta inteira no corpo. Nela caminham dezenas de homens a pé, em fila, cada um carregando alguma peça: um arco, uma espada, uma taça, um falcão no punho, um bastão de comando.

A faixa se interrompe em quatro medalhões redondos. Dentro de cada um, um cavaleiro sozinho caça ou luta, montado, com o corpo virado sobre a sela no momento do golpe.

Os rostos da corte

Os homens da faixa não têm todos a mesma cara. Uns usam barba cheia e turbante, outros têm o rosto liso, os olhos puxados e o chapéu de aba, o tipo físico dos mongóis e dos turcos das estepes.

A mistura retrata a corte mameluca como ela era. Os emires (os comandantes militares) vinham das estepes, e os funcionários, escribas e mercadores eram árabes, egípcios e sírios de nascimento.

As roupas também foram gravadas com cuidado. Os mantos têm padrões de tecido, os cintos têm fivelas, e as botas de montaria aparecem com o cano dobrado.

O fundo da bacia

Por dentro, quem se debruça para ver a água encontra outro mundo. O fundo está coberto por peixes, enguias, patos, sapos, caranguejos e crocodilos, nadando em círculo em volta de um medalhão central.

Com a bacia cheia, os animais pareciam se mover sob a superfície. O artesão desenhou a fauna do Nilo e do mar dentro de um objeto feito para segurar água.

Na borda interna correm mais caçadores, leões atacando antílopes e figuras de animais fantásticos, entre eles a esfinge e a harpia (o pássaro com cabeça humana).

As armas apagadas

Em vários pontos, os escudos e brasões mamelucos foram raspados. Por cima deles, aparecem flores-de-lis, o emblema da monarquia francesa, gravadas mais tarde por outra mão, num traço mais grosso e menos fino que o original.

A troca se vê a olho nu. Onde o mestre do Cairo usou prata fina e linhas de um fio de cabelo, o gravador francês cavou sulcos rasos e largos, sem incrustação, e o latão aparece cru no desenho dos lírios.

 
 

II  A História Por Trás

Seis assinaturas de um mestre do Cairo

O artesão deixou o nome seis vezes na peça. A assinatura principal está na borda, acima de uma figura, em letras árabes de prata: "Obra do mestre Muhammad ibn al-Zayn, que seja perdoado".

As outras cinco aparecem escondidas em objetos que as figuras seguram, como se o mestre tivesse costurado o próprio nome nos tecidos e nas peças da procissão.

Um nome repetido

Assinar uma vez era comum nos metais mamelucos. Seis vezes não era. A repetição sugere um artesão de prestígio, que sabia o valor da obra e queria ser lembrado junto com ela.

Uma segunda peça do Louvre, uma bacia menor, também traz o nome de Muhammad ibn al-Zayn. Fora as duas assinaturas, nada se sabe da vida dele: nem a data em que nasceu, nem a oficina, nem a cidade exata.

A data pelo estilo

A bacia não traz data nem o nome de um sultão. Por isso, os estudiosos a datam pelas roupas, pelas armas e pelo modo de incrustar a prata, e as estimativas ficam entre 1320 e 1340, no tempo do sultão al-Nasir Muhammad.

O estudo que fixou essa leitura foi do historiador David Storm Rice, publicado em Paris em 1951 com o título Le Baptistère de Saint Louis. Rice leu as inscrições, contou as assinaturas e descreveu figura por figura.

O livro de Rice ainda é a base de quem estuda a peça. Ele também foi o primeiro a propor que alguns dos homens da procissão fossem retratos de cargos da corte, como o porta-arco, o mestre dos falcões e o copeiro do sultão.

Do Cairo a Vincennes

O caminho até a França continua sem documento. Os metais mamelucos chegavam à Europa por Veneza e Gênova, cidades que compravam no Cairo e em Alexandria tecidos, especiarias e peças de latão para revender.

A bacia pode ter vindo como presente diplomático, como compra de mercador ou como peça de saque. Nenhuma das três versões tem papel que a prove.

O rei que não voltou

Luís IX desembarcou no Egito em 1249, na Sétima Cruzada, e foi capturado pelos soldados do sultão no ano seguinte, em Mansura. A França pagou um resgate enorme para tê-lo de volta.

Vinte anos depois, ele partiu de novo, desta vez para Túnis, e lá adoeceu no acampamento em 1270, durante uma epidemia que atingiu o exército. A Igreja o declarou santo em 1297.

O nome dele só foi ligado à bacia séculos mais tarde, nos inventários reais. A associação parece ter nascido de uma suposição simples: um objeto oriental tão rico no tesouro da coroa só podia ter vindo das cruzadas do rei santo.

 

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III  Por Que Importa

A água do batismo e o metal do inimigo

A bacia passou a servir no rito mais importante da dinastia: o batismo do herdeiro. A água que tornava cristão o futuro rei da França descia sobre ele dentro de um objeto feito por um muçulmano para um senhor muçulmano.

Ninguém na corte de 1606 lia árabe. As letras da borda pareciam ornamento, e a prece de perdão do mestre do Cairo ficou à vista de todos durante o batismo, sem que ninguém soubesse o que ela pedia.

As flores-de-lis por cima

As flores-de-lis gravadas sobre os brasões raspados mostram o momento em que a peça mudou de dono por dentro. A coroa francesa não destruiu a bacia nem a escondeu: apagou o emblema do senhor mameluco e pôs o seu no lugar.

Os desenhos de caça, os peixes e as assinaturas ficaram. O objeto passou a contar duas histórias ao mesmo tempo, a da oficina do Cairo e a da capela de Vincennes.

No Louvre

A bacia entrou no Louvre no século 19, e é hoje uma das peças centrais do Departamento de Artes do Islã, aberto em 2012 sob a cobertura ondulada do pátio Visconti.

Antes disso, passou por restauros que limparam a superfície e fixaram partes soltas da incrustação. Parte da prata se perdeu nos séculos de uso, e nos sulcos vazios o latão mostra o desenho original como uma gravura sem cor.

Nas salas, ela aparece como obra-prima da metalurgia mameluca, ao lado de lâmpadas de mesquita e bacias de outros mestres. O nome francês continua na etiqueta.

O nome na etiqueta

Os curadores mantêm Batistério de São Luís porque é o nome pelo qual a peça é conhecida há séculos, e trocar o título apagaria parte da história dela na França. O nome do mestre, Muhammad ibn al-Zayn, aparece na linha de baixo.

As duas bacias

Quem visita o Louvre pode chamar a peça pelo nome do rei que lutou contra os sultões e nunca a viu, guardando a história da coroa que a usou por três séculos, ou pelo nome do mestre que a assinou seis vezes e pediu perdão na borda, devolvendo a obra à oficina do Cairo. Os dois nomes estão gravados na mesma história, um na etiqueta e outro no metal.

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, quantas vezes o artesão Muhammad ibn al-Zayn deixou o próprio nome gravado na bacia do Batistério de São Luís?

AQuatro vezes
BDuas vezes
CSeis vezes
DDez vezes

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