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Na imagem, a folha é cor de marfim envelhecido, com o papel manchado de leve nas bordas. Boa parte da área está em branco, sem água desenhada, com duas rochas e uma linha de chão na base.
Os dois pássaros ocupam pedaços pequenos da folha. São corpos compactos, desenhados com poucas pinceladas de tinta cinza, mais escura no dorso e mais rala na barriga. As patas saem em traços curtos e rápidos.
O olho quadrado
O olho é um detalhe pequeno no alto da folha, à esquerda. Bada Shanren o desenhou como uma forma arredondada, contornada de preto, com o interior deixado em papel branco. A pupila é um ponto de tinta dentro desse branco.
Com a cabeça inclinada, o pássaro do alto olha para baixo, de esguelha. O olhar não pede atenção nem simpatia. Ele mede o que está lá embaixo, na folha.
Na tradição chinesa, mostrar o branco dos olhos tem nome: baiyan, “olho branco”. O gesto vem de Ruan Ji, poeta do século 3 que, segundo os relatos, recebia os convidados que desprezava com o branco dos olhos e os amigos com o olhar direto.
O vazio em volta
Sem água desenhada, os pássaros pousam em rochas que não estão em lugar nenhum. O branco do papel serve de rio, de céu e de silêncio ao mesmo tempo. Quem olha completa o resto.
O álbum inteiro segue a mesma lógica. São folhas com um gato dormindo, uma flor de lótus, um pássaro numa pedra e o peixe solitário, cada um com pouco papel ocupado e muito papel livre em volta.
A tinta é diluída em vários tons. O dorso tem um preto úmido, quase brilhante; a cauda vai clareando até sumir. O pintor trabalhava rápido, sem esboço, e não corrigia o traço depois de pousado.
Nas bordas da folha, a tinta mais aguada se espalhou pelas fibras do papel e deixou contornos macios. O efeito foi buscado: o papel absorvente da pintura chinesa não perdoa hesitação, e cada parada do pincel vira mancha.
A assinatura e o selo
No canto superior esquerdo, em coluna vertical, aparecem quatro caracteres em escrita corrida: 八大山人, Bada Shanren. Logo abaixo, dois selos vermelhos, carimbados com pasta de cinábrio.
Ele escrevia os dois primeiros caracteres juntos e os dois últimos também, num traço contínuo. Vistos assim, os pares lembram outros caracteres: 哭之, “chorar por isso”, ou 笑之, “rir disso”. A mesma linha serve às duas leituras.
O selo também não é decoração. Na pintura chinesa, o carimbo vermelho marca autoria e posse, e as folhas de Bada Shanren costumam trazer, além do dele, os selos dos colecionadores por cujas mãos passaram ao longo de três séculos.
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