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Bada Shanren: o peixe de olho branco

Bada Shanren (Zhu Da), Álbum Anwan, 1694, tinta sobre papel, Museu Sen-oku Hakuko Kan, Quioto

Dois pássaros pousados em rochas, sob folhas de lótus, pintados a tinta por Bada Shanren

Pássaros e lótus, tinta sobre papel, 1694

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Uma folha de papel de cerca de 30 centímetros, com muito espaço vazio, onde dois pássaros pintados a tinta preta pousam em rochas sob folhas de lótus. O olho do pássaro do alto é um círculo branco com a pupila preta, e ele prova que o pintor sabia exatamente para quem olhava de lado.

A folha pertence a um álbum de 1694 conhecido como Álbum Anwan, hoje no Museu Sen-oku Hakuko Kan, em Quioto, no Japão. Quem pintou assinou Bada Shanren, nome que quer dizer algo como “o homem da montanha dos oito grandes”.

O nome de nascimento era Zhu Da. Ele nasceu em 1626, em Nanchang, no sul da China, descendente direto de Zhu Quan, um dos filhos do fundador da dinastia Ming. Cresceu numa casa de príncipes, com tutores, livros e pincéis.

Em 1644, rebeldes tomaram Pequim, o último imperador Ming se enforcou numa colina atrás do palácio e, semanas depois, os manchus entraram na capital. Fundaram a dinastia Qing e passaram a caçar os parentes da família derrubada.

Zhu Da tinha 18 anos. Em 1648, raspou a cabeça e entrou num mosteiro budista. Para um Zhu, o hábito de monge era também um esconderijo: ninguém procurava herdeiro de trono entre os que varriam o pátio do templo.

Passou mais de trinta anos entre mosteiros. Chegou a dirigir um deles e recebia discípulos. Pintava flores, frutas e pedras em estilo contido, ainda sem o peixe de olho branco.

Por volta de 1680, algo se rompeu. Os relatos da época contam que ele rasgou e queimou o hábito, voltou a Nanchang e passou a andar pelas ruas rindo e chorando alto, sem explicar a ninguém o motivo.

Dessa crise saiu o pintor das folhas quase vazias. Antes de chegar à assinatura que se lê de dois jeitos, vale olhar os pássaros com calma, como eles aparecem na imagem desta edição.

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I  O Que Você Vê

Um olho branco no canto da folha

Na imagem, a folha é cor de marfim envelhecido, com o papel manchado de leve nas bordas. Boa parte da área está em branco, sem água desenhada, com duas rochas e uma linha de chão na base.

Os dois pássaros ocupam pedaços pequenos da folha. São corpos compactos, desenhados com poucas pinceladas de tinta cinza, mais escura no dorso e mais rala na barriga. As patas saem em traços curtos e rápidos.

O olho quadrado

O olho é um detalhe pequeno no alto da folha, à esquerda. Bada Shanren o desenhou como uma forma arredondada, contornada de preto, com o interior deixado em papel branco. A pupila é um ponto de tinta dentro desse branco.

Com a cabeça inclinada, o pássaro do alto olha para baixo, de esguelha. O olhar não pede atenção nem simpatia. Ele mede o que está lá embaixo, na folha.

Na tradição chinesa, mostrar o branco dos olhos tem nome: baiyan, “olho branco”. O gesto vem de Ruan Ji, poeta do século 3 que, segundo os relatos, recebia os convidados que desprezava com o branco dos olhos e os amigos com o olhar direto.

O vazio em volta

Sem água desenhada, os pássaros pousam em rochas que não estão em lugar nenhum. O branco do papel serve de rio, de céu e de silêncio ao mesmo tempo. Quem olha completa o resto.

O álbum inteiro segue a mesma lógica. São folhas com um gato dormindo, uma flor de lótus, um pássaro numa pedra e o peixe solitário, cada um com pouco papel ocupado e muito papel livre em volta.

A tinta é diluída em vários tons. O dorso tem um preto úmido, quase brilhante; a cauda vai clareando até sumir. O pintor trabalhava rápido, sem esboço, e não corrigia o traço depois de pousado.

Nas bordas da folha, a tinta mais aguada se espalhou pelas fibras do papel e deixou contornos macios. O efeito foi buscado: o papel absorvente da pintura chinesa não perdoa hesitação, e cada parada do pincel vira mancha.

A assinatura e o selo

No canto superior esquerdo, em coluna vertical, aparecem quatro caracteres em escrita corrida: 八大山人, Bada Shanren. Logo abaixo, dois selos vermelhos, carimbados com pasta de cinábrio.

Ele escrevia os dois primeiros caracteres juntos e os dois últimos também, num traço contínuo. Vistos assim, os pares lembram outros caracteres: 哭之, “chorar por isso”, ou 笑之, “rir disso”. A mesma linha serve às duas leituras.

O selo também não é decoração. Na pintura chinesa, o carimbo vermelho marca autoria e posse, e as folhas de Bada Shanren costumam trazer, além do dele, os selos dos colecionadores por cujas mãos passaram ao longo de três séculos.

 
 

II  A História Por Trás

O príncipe escondido no mosteiro

A família Zhu governou a China de 1368 a 1644. No fim desse período, havia dezenas de milhares de descendentes espalhados pelas províncias, sustentados por pensões do Estado.

Com a queda, as pensões acabaram e os Qing passaram a ver cada Zhu como possível bandeira de revolta. Muitos trocaram de sobrenome. Outros fugiram para o sul, onde príncipes Ming resistiram até 1662.

O pai de Zhu Da, também pintor, morreu pouco depois da queda. A esposa e o filho do jovem príncipe aparecem nos relatos só de passagem, sem nome nem destino conhecidos.

Trinta anos de hábito

Zhu Da escolheu o mosteiro. Recebeu nomes religiosos, estudou o budismo chan (o ramo chinês que deu origem ao zen japonês) e escreveu poemas curtos, cheios de enigma, no lugar de sermões.

Em 1678, um magistrado local, Hu Yitang, o convidou para morar na sua casa, em Linchuan. Zhu Da ficou mais de um ano. Os relatos ligam a estadia ao começo da crise: muita bebida, pouco sono e convívio com funcionários do novo governo.

A porta fechada

Na volta a Nanchang, o comportamento chamava a atenção dos vizinhos. Ele ria sozinho, chorava em seguida, bebia até cair. Em certa época, escreveu uma palavra numa folha, colou na porta de casa e parou de falar com quem aparecia.

Quem quisesse conversar com ele precisava usar gestos ou bilhete. Com os amigos de vinho, no entanto, seguia rindo e gritando.

O biógrafo Shao Changheng, que o conheceu nos anos 1690, deixou um texto curto sobre ele, “Bada Shanren zhuan” (Vida de Bada Shanren). É uma das poucas fontes da época, e descreve um homem que pintava bêbado e dava as folhas a quem pedisse.

O nome novo

Por volta de 1684, apareceu a assinatura Bada Shanren. Antes, ele já tinha usado outras, entre elas Lü, “burro”, e Geshan, “montanha individual”.

O historiador Wang Fangyu, no livro “Master of the Lotus Garden: The Life and Art of Bada Shanren” (1990), escrito com Richard Barnhart, mostra como a escrita corrida do nome se aproxima de 哭之 e 笑之. O pintor nunca explicou a escolha por escrito.

Os oito grandes do nome também ficaram sem chave única. Uma leitura liga o número a um texto budista; outra lembra que Ba e Da, juntos, formam quase a mesma figura do caractere 天, “céu”.

 

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III  Por Que Importa

Choro ou riso na mesma linha

Um descendente Ming não podia escrever contra os Qing sem risco de execução. A pintura de Bada Shanren dizia o que a boca não dizia, e dizia em forma que permitia negar.

Um peixe de olho branco é só um peixe. Uma assinatura em escrita corrida é só um nome. Quem acusasse precisaria provar a intenção, e a intenção ficava escondida no traço.

O olhar contra o império

Os pássaros dele seguem o mesmo padrão. Aves pousadas numa perna só, de costas, com o pescoço encolhido e o olho branco virado para o alto. Rochas que se equilibram sobre a ponta, como se fossem tombar.

Muitos estudiosos leem nessas formas o mundo virado de ponta-cabeça depois de 1644. Outros veem só o humor de um homem difícil. Os dois grupos citam as mesmas folhas.

O próprio pintor ajudou a manter a dúvida. Nos poemas que escrevia ao lado das imagens, usava alusões a textos antigos tão fechadas que até os amigos letrados da época confessavam não entender.

A herança na pintura

A economia de traço dele mudou a pintura chinesa. Pintores do século 18, como os chamados Excêntricos de Yangzhou, copiaram o vazio e o traço solto. No século 20, Qi Baishi disse em versos que gostaria de ter nascido a tempo de moer a tinta para Bada Shanren.

As folhas dele estão hoje em museus de Quioto, Xangai, Pequim, Nova York e Cleveland. Em Nanchang, a antiga casa de Qingyunpu, onde ele viveu, virou o Memorial Bada Shanren.

No mercado de arte, uma folha dele passa com facilidade de milhões de dólares em leilão. Por isso as falsificações correm desde o século 18, e cada álbum novo que aparece passa por anos de exame de selo, papel e traço.

A folha diante de quem olha

Ele viveu até 1705, já na casa dos 79 anos, pintando sob os Qing até o fim. Nunca serviu ao governo e nunca chegou a escrever o motivo das lágrimas ou do riso.

Diante dos pássaros desta folha, a escolha fica com quem olha: ler a assinatura como choro pelo império perdido, ou como riso de quem viu o trono cair e sobreviveu dentro de um mosteiro. As duas leituras estão acima.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Que palavra Zhu Da escreveu na porta de casa quando decidiu parar de falar?

★ RARO

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Segundo o texto, a tradição do baiyan, o olho branco pintado nos pássaros de Bada Shanren, vem de qual figura histórica?

AShao Changheng, biógrafo do século 17
BRuan Ji, poeta do século 3
CHu Yitang, magistrado de Linchuan
DWang Fangyu, historiador moderno

Resultado da última edição: 80% acertaram.

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