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Apoteose da Guerra: a dedicatória gravada na moldura

Vasily Vereshchagin, Apoteose da Guerra, 1871, Galeria Tretyakov, Moscou

Apoteose da Guerra, de Vereshchagin: pilha de crânios com corvos diante de uma cidade em ruínas no deserto

Crânios e corvos diante da cidade em ruínas

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Uma tela a óleo de 127 por 197 centímetros, pintada em Munique em 1871. No meio dela, um monte de crânios humanos empilhados até a altura de um homem. A tela prova que um soldado condecorado pelo império russo podia acusar a guerra inteira, inclusive a do próprio império.

O quadro se chama Apoteose da Guerra e foi pintado por Vasily Vereshchagin, nascido em 1842 em Cherepovets, no norte da Rússia. Apoteose, palavra grega, nomeava a elevação de um homem à condição de deus. No teatro, o termo ganhou outro uso: a cena de glória com que o espetáculo se encerra.

Vereshchagin não pintou de ouvido. Em 1867, aceitou o convite do general Konstantin von Kaufman, governador do Turquestão russo, para acompanhar o exército na Ásia Central como artista. Em 1868, ficou preso com a guarnição na cidadela de Samarcanda, cercada por tropas do emir de Bukhara, e pegou em armas.

Saiu do cerco com a Ordem de São Jorge de quarta classe, a medalha militar mais respeitada do império para oficiais. Foi a única condecoração que ele aceitou usar a vida inteira. Anos depois, recusaria títulos e cargos oficiais, mas a cruz ganha no muro de Samarcanda ficou no peito dele em todos os retratos.

Três anos depois, num ateliê alemão, longe da Ásia, o homem da medalha pintou um deserto, uma cidade arruinada e uma pilha de ossos. Deu à tela um título de festa e, na moldura, mandou gravar em russo uma frase dirigida a um público preciso.

Quem lê o título espera um general a cavalo, bandeiras e uma multidão aplaudindo. Quem olha a tela encontra corvos, árvores sem folha e um céu sem nuvem. A distância entre a palavra e a imagem é o assunto desta edição, e começa pelo que está pintado, de baixo para cima.

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I  O Que Você Vê

Um monte de crânios ao sol

A resposta de ontem

Quem fez a primeira cópia do Vaso Portland em vidro, em 1876?

Foi John Northwood, gravador de vidro de Stourbridge, e ele levou três anos. A encomenda veio do industrial Philip Pargeter, dono da Red House Glass Works. A cópia ficou pronta em 1876 e abriu na cidade uma indústria de vidro camafeu que durou até o começo do século 20.

Na imagem, a pilha de crânios ocupa o centro da tela, apoiada num chão de terra seca, amarelada e plana. Ela sobe como um cone, larga na base e estreita no topo, sem nenhuma figura humana viva por perto.

Os crânios são de um bege desbotado, quase da cor da areia. As órbitas vazias aparecem como manchas escuras e repetidas, e essa repetição dá ao monte uma textura de pedra empilhada, até o olho perceber de que pedra se trata.

Os corvos

Sobre a pilha e em volta dela, pássaros pretos pousam e voam. São corvos, desenhados em silhuetas escuras contra o chão claro e contra o céu. Alguns estão em cima dos crânios, outros cruzam o ar acima do monte.

São os únicos seres em movimento no quadro. Nenhum soldado aparece, nem vencedor nem vencido, e nenhuma arma ficou caída no chão. A guerra, que deu título à cena, já passou: o que sobra para os vivos é o trabalho dos pássaros.

As árvores e a cidade

Ao lado do monte, árvores secas e sem folha erguem galhos retorcidos. Atrás, numa faixa que corre de um lado a outro da tela, aparecem muralhas e construções de barro claro, com partes caídas e sem nenhum sinal de gente.

É uma cidade em ruínas, do tipo das que Vereshchagin conheceu no Turquestão: casas baixas, muros grossos e, aqui e ali, o perfil de uma cúpula. Mais ao fundo, uma linha de montanhas fecha o horizonte numa cor azulada.

O céu e a luz

O céu é limpo, de um azul claro que clareia perto do horizonte. Não há nuvem de tempestade, fumaça nem fogo. A luz é forte, de dia claro, e o monte projeta no chão, à direita, uma sombra escura e larga.

A escolha pesa. Um pintor de batalhas do século 19 costumava armar o drama com céu carregado e luz dramática. Vereshchagin pintou um dia comum de calor, em que o horror fica parado no centro, sem música e sem efeito.

O que a reprodução não mostra

Na imagem do email não dá para contar os crânios um a um, nem conferir de perto as marcas de golpe que aparecem em alguns deles na tela original. Também não aparece a moldura, onde mora a frase que dá sentido ao título.

A moldura e a frase têm história própria, e ela começa cinco séculos antes do quadro.

 
 

II  A História Por Trás

De Tamerlão a Kashgar

A ideia da tela nasceu de Tamerlão, ou Timur, o conquistador turco-mongol que no século 14 montou um império da Ásia Central até a Anatólia. As crônicas da época registram que, depois de tomar cidades rebeldes, como Isfahan em 1387 e Bagdá em 1401, ele mandava erguer torres com as cabeças dos vencidos.

Vereshchagin pensou primeiro num título direto, Triunfo de Tamerlão. A pilha seria a obra de um conquistador antigo, distante no tempo e no mapa, contada como lição de história.

O viajante de Kashgar

Na Ásia Central, o pintor ouviu também uma história mais recente. Em 1857, em Kashgar, cidade do oeste da atual China, o governante Wali Khan Tora mandou executar o explorador alemão Adolf Schlagintweit, que atravessava a região estudando o terreno e o clima.

Segundo os relatos que circulavam no Turquestão, a cabeça de Schlagintweit foi posta numa pilha de crânios diante da cidade. Vereshchagin conhecia a história, e os estudiosos da obra a apontam como uma das fontes da cena.

O costume de empilhar cabeças, portanto, não era lenda de quinhentos anos. Ainda existia na região quando o pintor nasceu, e ele o tratou como prática viva, e não como curiosidade de museu.

Munique, 1871

Vereshchagin pintou a série do Turquestão longe do Turquestão. Em 1871, montou ateliê em Munique, na Baviera, onde trabalhou os esboços e anotações trazidos da Ásia. A Apoteose da Guerra saiu dessa temporada alemã.

No caminho entre o esboço e a tela, o título mudou. Tamerlão saiu e entrou a palavra apoteose, que tira a cena de um homem só e a entrega à própria guerra.

A frase da moldura

Para que ninguém lesse a pilha como episódio exótico de um passado oriental, Vereshchagin mandou gravar na moldura uma dedicatória em russo. A tradução corrente diz:

“Dedicado a todos os grandes conquistadores, passados, presentes e futuros.” (Vasily Vereshchagin, inscrição na moldura da Apoteose da Guerra, 1871)

A palavra futuros carrega o peso da frase. Passados cabia em Tamerlão. Presentes cabia em qualquer exército de 1871, ano em que a Prússia acabava de vencer a França e a Rússia avançava sobre a Ásia Central. Futuros não tinha dono ainda, e servia a qualquer um que viesse depois.

O pintor nunca escondeu a intenção. Em textos e entrevistas, repetiu que pintava a guerra como ela é, e não como os desfiles a mostravam. A dedicatória é essa intenção posta onde o visitante não podia deixar de ler.

 

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III  Por Que Importa

A dedicatória sem data de validade

A série do Turquestão foi mostrada em Londres, no Crystal Palace, em 1873, e em São Petersburgo em 1874. Na capital russa, a exposição foi gratuita e encheu as salas. A Apoteose da Guerra era a tela que o público procurava.

Parte do alto comando russo não gostou do que viu. Oficiais acusaram o pintor de rebaixar o soldado russo, mostrando derrota, abandono e cadáveres em vez de vitória. Sob a pressão, Vereshchagin queimou três telas da série, entre elas Esquecido, em que um soldado russo jaz sozinho no campo enquanto os corvos chegam.

O comprador e o museu

A Apoteose não foi queimada. Em 1874, o colecionador Pavel Tretyakov, comerciante de Moscou que montava uma galeria de arte russa, comprou a série do Turquestão quase inteira e a levou para a coleção.

A tela segue exposta na Galeria Tretyakov, em Moscou, a mesma instituição que nasceu da coleção dele. Vereshchagin, que recusou naquele mesmo ano o título de professor da Academia Imperial de Artes por não aceitar honrarias oficiais, ficou com a obra pendurada no museu de um particular.

O pintor no navio

Vereshchagin seguiu atrás das guerras. Esteve nos Bálcãs na guerra contra os turcos, entre 1877 e 1878, onde foi ferido e perdeu um irmão. Viajou à Índia, às Filipinas, a Cuba e ao Japão, sempre com caderno de esboços, e expôs as séries de guerra em Paris, Berlim, Viena e Nova York. Em 1901, foi um dos indicados ao primeiro Prêmio Nobel da Paz.

Em 1904, com a guerra entre Rússia e Japão, embarcou como observador no encouraçado Petropavlovsk, em Port Arthur, na Manchúria. Em 13 de abril, o navio bateu numa mina e afundou em minutos. Vereshchagin estava a bordo e não sobreviveu, junto com o almirante Stepan Makarov e centenas de marinheiros.

O pintor que dedicou os crânios aos conquistadores futuros acabou vítima de uma guerra posterior à tela. A dedicatória continuava valendo.

As duas leituras

Desde 1871, a Apoteose da Guerra é lida de dois jeitos. Um a trata como cena histórica da Ásia Central, um retrato do que Tamerlão e Wali Khan Tora fizeram, preso ao seu lugar e à sua época. O outro a trata como acusação a todo conquistador, inclusive ao império russo que o próprio pintor serviu em Samarcanda.

Diante da tela em Moscou, quem olha escolhe: ler a pilha de crânios como lembrança de um costume antigo e distante, ou como recado endereçado ao próprio tempo de quem lê a moldura. As duas leituras estão acima.

★ RARO

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Segundo o texto, a quem Vereshchagin dedicou a Apoteose da Guerra na moldura?

AAos soldados caídos do exército russo no Turquestão
BAo general Kaufman, que o convidou para a campanha
CA todos os grandes conquistadores, passados, presentes e futuros
DAo emir de Bukhara, que cercou Samarcanda

Resultado da última edição: 90% acertaram.

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