A resposta de ontem Quem fez a primeira cópia do Vaso Portland em vidro, em 1876? Foi John Northwood, gravador de vidro de Stourbridge, e ele levou três anos. A encomenda veio do industrial Philip Pargeter, dono da Red House Glass Works. A cópia ficou pronta em 1876 e abriu na cidade uma indústria de vidro camafeu que durou até o começo do século 20. |
Na imagem, a pilha de crânios ocupa o centro da tela, apoiada num chão de terra seca, amarelada e plana. Ela sobe como um cone, larga na base e estreita no topo, sem nenhuma figura humana viva por perto.
Os crânios são de um bege desbotado, quase da cor da areia. As órbitas vazias aparecem como manchas escuras e repetidas, e essa repetição dá ao monte uma textura de pedra empilhada, até o olho perceber de que pedra se trata.
Os corvos
Sobre a pilha e em volta dela, pássaros pretos pousam e voam. São corvos, desenhados em silhuetas escuras contra o chão claro e contra o céu. Alguns estão em cima dos crânios, outros cruzam o ar acima do monte.
São os únicos seres em movimento no quadro. Nenhum soldado aparece, nem vencedor nem vencido, e nenhuma arma ficou caída no chão. A guerra, que deu título à cena, já passou: o que sobra para os vivos é o trabalho dos pássaros.
As árvores e a cidade
Ao lado do monte, árvores secas e sem folha erguem galhos retorcidos. Atrás, numa faixa que corre de um lado a outro da tela, aparecem muralhas e construções de barro claro, com partes caídas e sem nenhum sinal de gente.
É uma cidade em ruínas, do tipo das que Vereshchagin conheceu no Turquestão: casas baixas, muros grossos e, aqui e ali, o perfil de uma cúpula. Mais ao fundo, uma linha de montanhas fecha o horizonte numa cor azulada.
O céu e a luz
O céu é limpo, de um azul claro que clareia perto do horizonte. Não há nuvem de tempestade, fumaça nem fogo. A luz é forte, de dia claro, e o monte projeta no chão, à direita, uma sombra escura e larga.
A escolha pesa. Um pintor de batalhas do século 19 costumava armar o drama com céu carregado e luz dramática. Vereshchagin pintou um dia comum de calor, em que o horror fica parado no centro, sem música e sem efeito.
O que a reprodução não mostra
Na imagem do email não dá para contar os crânios um a um, nem conferir de perto as marcas de golpe que aparecem em alguns deles na tela original. Também não aparece a moldura, onde mora a frase que dá sentido ao título.
A moldura e a frase têm história própria, e ela começa cinco séculos antes do quadro.
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A ideia da tela nasceu de Tamerlão, ou Timur, o conquistador turco-mongol que no século 14 montou um império da Ásia Central até a Anatólia. As crônicas da época registram que, depois de tomar cidades rebeldes, como Isfahan em 1387 e Bagdá em 1401, ele mandava erguer torres com as cabeças dos vencidos.
Vereshchagin pensou primeiro num título direto, Triunfo de Tamerlão. A pilha seria a obra de um conquistador antigo, distante no tempo e no mapa, contada como lição de história.
O viajante de Kashgar
Na Ásia Central, o pintor ouviu também uma história mais recente. Em 1857, em Kashgar, cidade do oeste da atual China, o governante Wali Khan Tora mandou executar o explorador alemão Adolf Schlagintweit, que atravessava a região estudando o terreno e o clima.
Segundo os relatos que circulavam no Turquestão, a cabeça de Schlagintweit foi posta numa pilha de crânios diante da cidade. Vereshchagin conhecia a história, e os estudiosos da obra a apontam como uma das fontes da cena.
O costume de empilhar cabeças, portanto, não era lenda de quinhentos anos. Ainda existia na região quando o pintor nasceu, e ele o tratou como prática viva, e não como curiosidade de museu.
Munique, 1871
Vereshchagin pintou a série do Turquestão longe do Turquestão. Em 1871, montou ateliê em Munique, na Baviera, onde trabalhou os esboços e anotações trazidos da Ásia. A Apoteose da Guerra saiu dessa temporada alemã.
No caminho entre o esboço e a tela, o título mudou. Tamerlão saiu e entrou a palavra apoteose, que tira a cena de um homem só e a entrega à própria guerra.
A frase da moldura
Para que ninguém lesse a pilha como episódio exótico de um passado oriental, Vereshchagin mandou gravar na moldura uma dedicatória em russo. A tradução corrente diz:
“Dedicado a todos os grandes conquistadores, passados, presentes e futuros.” (Vasily Vereshchagin, inscrição na moldura da Apoteose da Guerra, 1871)
A palavra futuros carrega o peso da frase. Passados cabia em Tamerlão. Presentes cabia em qualquer exército de 1871, ano em que a Prússia acabava de vencer a França e a Rússia avançava sobre a Ásia Central. Futuros não tinha dono ainda, e servia a qualquer um que viesse depois.
O pintor nunca escondeu a intenção. Em textos e entrevistas, repetiu que pintava a guerra como ela é, e não como os desfiles a mostravam. A dedicatória é essa intenção posta onde o visitante não podia deixar de ler.
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