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Esta pauta venceu a urna de 26/09.
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Os anjos que carregavam arcabuz
Mestre de Calamarca, igreja de Calamarca, Bolívia, fim do século 17
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Anjo arcabuzeiro, Mestre de Calamarca, c. 1690
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A quase quatro mil metros de altitude, no altiplano boliviano, fica um povoado chamado Calamarca. A estrada que liga La Paz a Oruro passa perto, entre pastos ralos e vento frio. A igreja do lugar é baixa, de adobe e pedra, e quem entra espera santos de rosto triste e mãos postas.
O que aparece nas paredes é outra tropa. Anjos de asas abertas vestem casaca bordada, gola de renda e chapéu de abas largas coberto de plumas. Nas mãos, no lugar de harpa ou trombeta, seguram um arcabuz, a arma de fogo de mecha que os soldados espanhóis carregavam na conquista.
As telas foram pintadas no fim do século 17 por um artista cujo nome não sobreviveu. Os historiadores o chamam de Mestre de Calamarca, pelo lugar onde a série ficou. Ninguém achou contrato, recibo ou assinatura que diga quem ele era.
Cada anjo traz o próprio nome escrito na tela, em latim. Alguns desses nomes não aparecem em nenhuma Bíblia aceita pela Igreja católica, e a Igreja tinha proibido o culto a anjos com nomes fora das Escrituras havia mais de um século.
Mesmo assim, as pinturas ficaram. Sobreviveram a terremotos, a saques, a três séculos de velas acesas e à umidade do adobe. Hoje são o conjunto mais conhecido de um gênero inteiro, o dos anjos arcabuzeiros, que só existe na arte colonial dos Andes.
A cena levanta três dúvidas. O que exatamente está pintado na tela, de onde veio a ideia de armar um anjo como mosqueteiro e por que esse soldado de asas pesa tanto para quem estuda a América espanhola.
A resposta começa pela roupa, que é o que salta primeiro aos olhos de quem para diante de um deles.
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I O Que Você Vê
Renda, plumas e pólvora
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Asiel Timor Dei, anjo arcabuzeiro pintado pelo Mestre de Calamarca no fim do século 17, é a figura mais reproduzida da série. O nome escrito na tela quer dizer Asiel, temor de Deus. Ele ocupa quase toda a altura do quadro, em pé, com o corpo levemente virado.
O rosto é jovem, liso, sem barba, com a pele clara e as bochechas rosadas. A expressão é calma. Não há raiva nem ameaça no semblante, embora as mãos segurem uma arma pronta para uso.
O chapéu é a peça mais festiva. A aba larga sustenta um penacho de plumas coloridas que sobe acima da cabeça. Nos Andes do século 17, esse tipo de chapéu era moda de cavalheiro rico, e não de soldado raso.
A roupa de um nobre
A casaca desce até os joelhos, justa no tronco e aberta na frente, coberta de bordados dourados. Na gola, uma renda branca e larga cobre os ombros. Nos punhos, a mesma renda se abre em babados.
Todo o traje corresponde ao que um nobre espanhol usaria numa cerimônia na corte do vice-reinado do Peru, com sede em Lima.
Nada na roupa é celestial. Não há túnica branca, nem manto flutuante, nem pés descalços. O pintor vestiu o anjo com o guarda-roupa mais caro que conhecia.
O dourado dos bordados tem função prática. Numa nave iluminada só por velas e pela luz estreita das janelas, o brilho do ouro pintado reflete a chama e destaca a figura do resto da parede. O fiel via primeiro o brilho e depois o rosto.
As asas e a arma
As asas saem das costas, grandes e abertas, e são a única pista de que a figura não é um homem. As penas vêm pintadas em tons que vão do claro na base ao escuro nas pontas.
O arcabuz atravessa o quadro na diagonal. É uma arma longa, de cano fino e coronha de madeira. O anjo a segura com as duas mãos, numa posição que qualquer instrutor de tiro da época reconheceria.
Essa precisão tem explicação. As poses de tiro dos anjos seguem as ilustrações de um manual militar holandês, como a seção seguinte conta. O Mestre de Calamarca copiou o gesto do soldado e trocou o soldado pelo anjo.
O fundo é simples, quase vazio, sem batalha nem inimigo. Uma inscrição em letras claras identifica o anjo pelo nome. A tela foi pensada para ser lida de longe, na penumbra da igreja, e por essa razão o contraste entre roupa clara e fundo escuro é forte.
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II A História Por Trás
O manual holandês e os nomes proibidos
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Os anjos de Calamarca têm duas origens que se cruzam: uma militar e uma religiosa. A primeira explica o gesto. A segunda explica o nome escrito em cada tela.
Em 1607, o gravurista holandês Jacob de Gheyn II publicou em Haia o Wapenhandelinghe (Manejo das armas), um manual ilustrado para treinar soldados. As gravuras mostravam, passo a passo, como carregar, apontar e disparar o arcabuz e o mosquete.
O livro circulou pela Europa inteira e cruzou o oceano. A historiadora boliviana Teresa Gisbert, no livro Iconografía y mitos indígenas en el arte, de 1980, identificou nas poses dos anjos andinos as figuras de De Gheyn, copiadas quase ao pé da letra pelos pintores coloniais.
Um anjo por nome
A parte religiosa é mais delicada. A Bíblia aceita pela Igreja católica nomeia só três anjos: Miguel, Gabriel e Rafael. O Concílio de Trento, reunido entre 1545 e 1563, reforçou a cautela com qualquer devoção que fugisse das Escrituras.
Ainda assim, uma lista de sete arcanjos com nomes extras circulava desde o século 15. Ela vinha de textos atribuídos ao frade franciscano português Amadeu da Silva, o Apocalypsis Nova (Novo Apocalipse), e ganhou força com o padre siciliano Antonio Lo Duca, que em Roma defendeu o culto aos sete.
A difusão teve limite. Em Roma e na Espanha, a Igreja recuou e mandou apagar os nomes extras de altares e pinturas. Nos Andes, longe dos bispos europeus, os nomes seguiram escritos nas telas, e Asiel convive na série com anjos que nenhum missal oficial registra.
A leitura do especialista
O historiador peruano Ramón Mujica Pinilla estudou a série no livro Ángeles apócrifos en la América virreinal, de 1992. O título já diz a tese: apócrifo quer dizer fora do cânone, texto sem aprovação oficial da Igreja.
Mujica Pinilla mostrou que os pintores andinos misturaram as duas fontes com intenção. O anjo armado era o soldado de uma milícia celeste, que defendia a fé com a mesma disciplina com que a tropa espanhola defendia o rei.
A escolha do arcabuz também tinha peso local. Na época, a arma de fogo era privilégio dos espanhóis, e a lei colonial proibia os indígenas de portá-la. Pôr a arma na mão do anjo associava o poder de fogo ao lado de Deus e da Coroa.
Sobre o próprio Mestre de Calamarca, o que se sabe termina aí. Não há documento com o nome dele, a data exata das telas ou quem as encomendou. A atribuição vem só do estilo, e a data no fim do século 17 vem da comparação com obras datadas da mesma região.
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