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Quem entra pela ponta sul da galeria encontra primeiro os asuras. São 92 figuras na contagem mais aceita pelos estudiosos, todas de perfil, voltadas para o centro, com olhos grandes e redondos e capacetes de crista.
Na frente da fila, puxando a cabeça da serpente, está o chefe dos demônios, maior que os outros, com várias cabeças empilhadas e muitos braços. Vasuki tem várias cabeças também, abertas em leque como as najas da arte khmer.
Do lado norte, puxando a cauda, vêm os devas, os deuses. A contagem chega a 88 figuras. Os rostos são serenos, com olhos amendoados e um leve sorriso, e os penteados terminam em coroas pontudas, em forma de cone.
O eixo no meio da parede
No centro exato do friso, Vishnu aparece de frente, com quatro braços, flutuando ao lado de um pilar alto. O pilar é o monte Mandara, a montanha usada como batedor, e a serpente dá a volta nele como uma corda em volta de um eixo.
Embaixo do monte, Vishnu aparece de novo, agora como Kurma, uma tartaruga gigante. Segundo o mito, a montanha afundava no oceano a cada giro, e o deus virou tartaruga para servir de apoio no fundo.
Acima do eixo, um Indra pequeno segura o topo da montanha para ela não tombar. A cena inteira gira em torno de um único ponto vertical, e a simetria do friso depende dele.
Três andares de pedra
O relevo se divide em três faixas. Na de baixo, o oceano aparece cheio de peixes, crocodilos, serpentes marinhas e criaturas sem nome. Perto do centro, os animais estão cortados ao meio, picados pelo giro da montanha.
Na faixa do meio ficam os dois times e a serpente. Atrás de cada fila, um oficial em pé segura o ritmo, como um capitão de remadores.
Na faixa de cima voam as apsaras, as dançarinas celestes, que segundo o mito nasceram da espuma do oceano batido. Elas aparecem em dezenas, todas na mesma postura de dança, com as pernas dobradas e os braços abertos.
Nas pontas da parede, atrás dos dois times, ficam os reforços. Do lado dos deuses, a última figura é Hanuman, o macaco guerreiro do Ramayana, agarrado à cauda de Vasuki.
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Suryavarman II subiu ao trono do Império Khmer por volta de 1113. Na maioria das vezes, os reis khmer anteriores tinham dedicado os grandes templos a Shiva. Ele escolheu Vishnu, o deus que conserva a ordem do mundo.
Angkor Wat levou cerca de trinta anos para ficar pronto. O complexo ocupa um retângulo de mais de um quilômetro por oitocentos metros, cercado por um fosso de 190 metros de largura, e as cinco torres centrais imitam os picos do monte Meru, a montanha sagrada da cosmologia hindu.
Uma galeria voltada para o leste
As galerias do térreo formam um quadrado em volta do templo, com cerca de 800 metros de relevos somados. Cada lado conta uma história: batalhas do Mahabharata, o cortejo do próprio rei, o céu e o inferno, o Ramayana.
A galeria leste ficou com o mito do oceano de leite. A escolha pesa: o leste é o lado do nascer do sol, e a cena do néctar trata de renovação, da vida que volta depois de um esforço longo. Para um rei devoto de Vishnu, a imagem de deuses e demônios obedecendo ao comando do deus servia também como retrato do poder dele mesmo.
O templo é voltado para o oeste, uma exceção entre os grandes santuários khmer. A maioria dos estudiosos liga a orientação ao caráter funerário: o oeste é o lado de Vishnu e o lado do pôr do sol, e Angkor Wat teria sido pensado também como túmulo do rei.
O império depois do rei
Suryavarman II morreu por volta de 1150, e parte das galerias ficou sem terminar. Os relevos do lado nordeste só foram completados no século XVI, em estilo mais duro e menos detalhado, que qualquer visitante atento percebe.
No fim do século XII, o rei Jayavarman VII adotou o budismo como religião oficial. Angkor Wat passou aos poucos de templo hindu a mosteiro budista, e nunca foi abandonado de vez: monges continuaram vivendo ali até hoje.
Os relatos de fora
Em 1296, o enviado chinês Zhou Daguan passou cerca de um ano em Angkor e escreveu um relato dos costumes da cidade. Séculos depois, missionários portugueses descreveram o templo na década de 1580.
Na Europa, a fama veio com o naturalista francês Henri Mouhot, que visitou Angkor em 1860. Os desenhos e as notas dele, publicados depois da morte do autor, apresentaram o templo ao público europeu e atraíram as primeiras expedições francesas de estudo.
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