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A serpente de 50 metros na parede de Angkor Wat

Escultores khmer, O Batimento do Oceano de Leite, c. 1150, Angkor Wat, Camboja

Relevo da galeria leste de Angkor Wat: deuses e demônios puxam a serpente Vasuki em volta do monte Mandara

Galeria leste de Angkor Wat, c. 1150

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Uma serpente de arenito com quase cinquenta metros de corpo, esticada na horizontal de uma ponta à outra de uma parede. Ela prova que, por volta de 1150, um rei khmer mandou gravar em pedra a cena mais longa de esforço coletivo da arte do Sudeste Asiático.

A parede fica na galeria leste de Angkor Wat, o templo erguido pelo rei Suryavarman II no norte do Camboja, perto da atual cidade de Siem Reap. A galeria é um corredor coberto, com colunas de um lado e o relevo do outro, e quem anda por ela leva alguns minutos para chegar ao fim da serpente.

A pedra tem cerca de dois metros de altura. O relevo é baixo, de poucos centímetros, e foi polido a ponto de brilhar onde as mãos dos visitantes passaram durante séculos. Nos trechos mais tocados, o arenito cinza ganhou um tom escuro, quase de bronze.

A cena vem de um mito hindu contado no Mahabharata e nos Puranas (coleções antigas de narrativas sagradas da Índia). Os deuses tinham perdido a força e precisavam do amrita, o néctar da imortalidade, que estava perdido no fundo de um oceano de leite. Sozinhos, não conseguiam tirá-lo de lá.

A saída foi uma trégua com os inimigos de sempre, os asuras (os demônios do mito). Os dois lados usariam uma montanha como batedor e a serpente Vasuki como corda. Cada time puxaria uma ponta, e o vaivém agitaria o oceano até o néctar subir.

Daí a parede ocupada quase só por braços. Dezenas de figuras, de perfil, inclinadas para trás, com o corpo da serpente apoiado nas mãos e nos ombros, repetem o mesmo gesto de cabo de guerra por dezenas de metros.

Escultores sem nome, trabalhando para um rei que se via como protetor do deus Vishnu, cortaram cada figura direto na parede já montada. Não há sinal de painel pré-fabricado. Tudo saiu da mesma rocha da galeria.

A primeira parte da edição percorre a parede de ponta a ponta, do time dos demônios ao time dos deuses, até o eixo da montanha no centro.

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I  O Que Você Vê

Dois times na mesma corda

Quem entra pela ponta sul da galeria encontra primeiro os asuras. São 92 figuras na contagem mais aceita pelos estudiosos, todas de perfil, voltadas para o centro, com olhos grandes e redondos e capacetes de crista.

Na frente da fila, puxando a cabeça da serpente, está o chefe dos demônios, maior que os outros, com várias cabeças empilhadas e muitos braços. Vasuki tem várias cabeças também, abertas em leque como as najas da arte khmer.

Do lado norte, puxando a cauda, vêm os devas, os deuses. A contagem chega a 88 figuras. Os rostos são serenos, com olhos amendoados e um leve sorriso, e os penteados terminam em coroas pontudas, em forma de cone.

O eixo no meio da parede

No centro exato do friso, Vishnu aparece de frente, com quatro braços, flutuando ao lado de um pilar alto. O pilar é o monte Mandara, a montanha usada como batedor, e a serpente dá a volta nele como uma corda em volta de um eixo.

Embaixo do monte, Vishnu aparece de novo, agora como Kurma, uma tartaruga gigante. Segundo o mito, a montanha afundava no oceano a cada giro, e o deus virou tartaruga para servir de apoio no fundo.

Acima do eixo, um Indra pequeno segura o topo da montanha para ela não tombar. A cena inteira gira em torno de um único ponto vertical, e a simetria do friso depende dele.

Três andares de pedra

O relevo se divide em três faixas. Na de baixo, o oceano aparece cheio de peixes, crocodilos, serpentes marinhas e criaturas sem nome. Perto do centro, os animais estão cortados ao meio, picados pelo giro da montanha.

Na faixa do meio ficam os dois times e a serpente. Atrás de cada fila, um oficial em pé segura o ritmo, como um capitão de remadores.

Na faixa de cima voam as apsaras, as dançarinas celestes, que segundo o mito nasceram da espuma do oceano batido. Elas aparecem em dezenas, todas na mesma postura de dança, com as pernas dobradas e os braços abertos.

Nas pontas da parede, atrás dos dois times, ficam os reforços. Do lado dos deuses, a última figura é Hanuman, o macaco guerreiro do Ramayana, agarrado à cauda de Vasuki.

 
 

II  A História Por Trás

Um rei e o seu deus

Suryavarman II subiu ao trono do Império Khmer por volta de 1113. Na maioria das vezes, os reis khmer anteriores tinham dedicado os grandes templos a Shiva. Ele escolheu Vishnu, o deus que conserva a ordem do mundo.

Angkor Wat levou cerca de trinta anos para ficar pronto. O complexo ocupa um retângulo de mais de um quilômetro por oitocentos metros, cercado por um fosso de 190 metros de largura, e as cinco torres centrais imitam os picos do monte Meru, a montanha sagrada da cosmologia hindu.

Uma galeria voltada para o leste

As galerias do térreo formam um quadrado em volta do templo, com cerca de 800 metros de relevos somados. Cada lado conta uma história: batalhas do Mahabharata, o cortejo do próprio rei, o céu e o inferno, o Ramayana.

A galeria leste ficou com o mito do oceano de leite. A escolha pesa: o leste é o lado do nascer do sol, e a cena do néctar trata de renovação, da vida que volta depois de um esforço longo. Para um rei devoto de Vishnu, a imagem de deuses e demônios obedecendo ao comando do deus servia também como retrato do poder dele mesmo.

O templo é voltado para o oeste, uma exceção entre os grandes santuários khmer. A maioria dos estudiosos liga a orientação ao caráter funerário: o oeste é o lado de Vishnu e o lado do pôr do sol, e Angkor Wat teria sido pensado também como túmulo do rei.

O império depois do rei

Suryavarman II morreu por volta de 1150, e parte das galerias ficou sem terminar. Os relevos do lado nordeste só foram completados no século XVI, em estilo mais duro e menos detalhado, que qualquer visitante atento percebe.

No fim do século XII, o rei Jayavarman VII adotou o budismo como religião oficial. Angkor Wat passou aos poucos de templo hindu a mosteiro budista, e nunca foi abandonado de vez: monges continuaram vivendo ali até hoje.

Os relatos de fora

Em 1296, o enviado chinês Zhou Daguan passou cerca de um ano em Angkor e escreveu um relato dos costumes da cidade. Séculos depois, missionários portugueses descreveram o templo na década de 1580.

Na Europa, a fama veio com o naturalista francês Henri Mouhot, que visitou Angkor em 1860. Os desenhos e as notas dele, publicados depois da morte do autor, apresentaram o templo ao público europeu e atraíram as primeiras expedições francesas de estudo.

 

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III  Por Que Importa

A corda que ainda puxa

O friso do oceano de leite virou referência fora do Camboja. A cena aparece reproduzida em escala no aeroporto de Suvarnabhumi, em Bangkok, com as duas filas puxando a serpente em volta de um eixo central.

A imagem de Angkor Wat está na bandeira do Camboja desde o século XIX, com intervalos, e é o único prédio desenhado na bandeira de um país. O templo entrou na lista do Patrimônio Mundial da UNESCO em 1992, junto com o parque arqueológico inteiro.

A pedra que pede cuidado

O arenito de Angkor é poroso e absorve água com facilidade. Na estação das chuvas, a umidade sobe pela base das paredes e desce pelas juntas do teto, e o sal que vem junto se cristaliza na superfície e solta lascas finas de pedra.

Liquens, morcegos e o toque dos visitantes completam o desgaste. As zonas escuras e polidas do relevo, as mesmas que brilham nas fotos, são as que mais mãos alisaram ao longo dos séculos.

Hoje, cordas e placas afastam o público da parede em vários trechos. Conservadores khmer e estrangeiros trabalham com escova macia, pincel e argamassa compatível com o arenito, e cada intervenção é registrada para quem vier depois.

Por que a cena serve até hoje

O mito trata de uma ideia simples e difícil: nenhum dos dois lados consegue o néctar sozinho. Deuses e demônios precisam puxar a mesma corda, cada um de uma ponta, e o vaivém só funciona se os dois mantêm a força.

Os escultores traduziram essa ideia em ritmo visual. A repetição das figuras, quase idênticas, cria um balanço que o olho acompanha de um lado ao outro, e o eixo vertical no centro segura a composição como a montanha segura a serpente.

A mesma solução aparece em painéis medievais europeus de procissão e em frisos gregos de cortejo: muitas figuras iguais, um movimento só, e um centro que organiza o resto. Em Angkor, o tamanho da parede leva a ideia ao limite.

Diante da serpente de pedra, a escolha fica com quem olha: ler o friso como hino a Vishnu, o deus que comanda os dois times, ou como retrato do próprio Suryavarman, o rei que pôs inimigos e aliados para trabalhar juntos. A parede de hoje mostra marcas de um conserto longo e recente.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Por que a galeria do oceano de leite ficou oito anos fechada aos visitantes, de 2004 a 2012?

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, o que deuses e demônios usam como corda para girar o oceano de leite?

AO macaco guerreiro Hanuman, agarrado à cauda da serpente
BA montanha Mandara, usada como eixo do giro
CA serpente Vasuki, enrolada na montanha
DO deus Indra, segurando o topo do monte

Resultado da última edição: 67% acertaram.

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