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Caipira Picando Fumo
Almeida Júnior · 1893 · Óleo sobre tela
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O lavrador paulista em tamanho de nobre
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Um rolo de fumo de corda, de tabaco torcido e curado ao sol, grosso como um pulso e escuro quase até o preto. É o objeto que um homem segura na mão esquerda enquanto a direita apoia a lâmina e vai tirando fatias finas, para depois esfarelar o picado entre os dedos e enrolar no papel ou na palha de milho. É o intervalo de descanso de quem trabalha na roça.
Esse gesto miúdo ocupa, numa tela paulista de 1893, dois metros de altura. É a medida que a pintura do século XIX reservava para general a cavalo, imperador de manto, santo em êxtase, mártir sendo levado. Retrato de corpo inteiro em tamanho quase natural custava caro, exigia ateliê grande e pressupunha um encomendante com sobrenome.
Aqui o corpo inteiro em tamanho quase natural é de um lavrador descalço, encostado numa parede de barro, sem nome registrado, sem função pública, sem feito nenhum a comemorar. Nada acontece na cena. Ninguém morre, ninguém vence, ninguém assina tratado. Um sujeito pica fumo.
O pintor tinha quarenta e três anos, tinha estudado em Paris com bolsa imperial, sabia executar cena histórica e retrato de encomenda com a técnica que a Academia cobrava, e usou essa técnica inteira para pintar gente da região onde nasceu, no interior de São Paulo, no tipo de casa em que essa gente morava de verdade.
A decisão parece pequena hoje, quando quadro de trabalhador rural virou lugar-comum de livro didático. Em 1893 ela invertia a escala de valores de um sistema inteiro de arte, porque tamanho e acabamento eram a forma como a pintura dizia quem merecia ser olhado por muito tempo.
Vale começar pelo que está na tela: a postura do corpo, a luz que entra, a parede atrás e cada peça largada no chão de terra.
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I O Que Você Vê
Dois metros de parede de barro e um pé sobre o outro
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Óleo sobre tela, duzentos e dois centímetros de altura por cento e quarenta e um de largura, segundo a ficha da Pinacoteca de São Paulo. Formato vertical, mais alto que largo, do tipo que se usa em retrato de aparato: quem para na frente encontra a figura pintada quase na própria escala.
A figura ocupa o eixo central e está de pé, apoiada de costas numa parede de taipa. O ombro esquerdo encosta no barro, o quadril desliza um pouco para fora, e o peso do corpo cai numa perna só. É a pose de quem parou por alguns minutos e não pretende sentar.
Os pés estão descalços e cruzados, um sobre o outro, com a planta suja de terra. O detalhe é o que fixa a cena numa casa de roça: chão batido, sem tábua, sem calçado guardado na porta.
A cabeça está baixa e o rosto virado para as mãos. Ele não olha para quem observa. Toda a atenção da figura está no trabalho de aparar o fumo, e quem chegou de fora fica na posição de quem espia sem ser notado.
As mãos são o centro da composição. A esquerda segura o rolo escuro contra a barriga, a direita conduz a lâmina em ângulo, e as duas estão pintadas com mais detalhe de veia, unha e calo do que o resto do corpo inteiro.
A roupa é de trabalho, não de posar. Camisa clara, aberta no peito, com a manga arregaçada acima do cotovelo. Calça esfiapada na barra. Chapéu de palha na cabeça, com a aba sombreando os olhos e deixando a boca na luz.
A luz entra de fora e bate de lado, iluminando o antebraço, o peito e a parede. Ela abre uma faixa clara no reboco de barro e deixa o canto de baixo em sombra quente, sem preto fechado.
A parede atrás não é cenário nobre. É taipa, com a superfície irregular, manchas de umidade, trechos onde o barro descascou e mostra a trama de madeira por baixo, pintada com a mesma paciência que um pintor de corte aplicaria num veludo.
O chão guarda os objetos do dia. Uma peneira encostada, um pilão, um cesto, restos de palha espalhados, tudo largado na posição de uso e não arrumado para a composição.
A paleta é curta e terrosa. Ocre, marrom, branco sujo, verde acinzentado, sem nenhuma cor saturada disputando atenção com a pele e com a camisa.
O quadro não tem anedota. Não há segunda figura, não há bicho em ação, não há sinal de conflito prestes a acontecer, e o interesse todo se sustenta na presença física do homem parado.
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O caboclo é o piolho da terra.
Monteiro Lobato, Urupês, 1914
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II A História Por Trás
De um ateliê de Cabanel para uma casa de taipa em Itu
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O pintor nasceu em Itu, no interior da província de São Paulo, em 1850, filho de família modesta, e começou pintando imagem de igreja na cidade. Um grupo de moradores custeou a ida dele ao Rio de Janeiro, onde entrou na Academia Imperial das Belas Artes.
A viagem à Europa veio por interferência direta do imperador. Dom Pedro II passou por Itu, viu o trabalho do rapaz e bancou a temporada em Paris, que durou de 1876 a 1882, na École des Beaux-Arts, no ateliê de Alexandre Cabanel.
Cabanel era o pintor mais premiado do sistema oficial francês, especialista em mitologia e retrato de aparato. O aprendizado ali foi de desenho rigoroso, anatomia, montagem de figura em tamanho grande e acabamento liso, exatamente o repertório que a pintura de história exigia.
O caminho previsto para quem voltava com essa formação era ficar no Rio de Janeiro, entrar para o corpo docente da Academia e disputar encomenda oficial. Era o que dava carreira, salário e medalha.
Ele fez o contrário. Instalou ateliê em São Paulo, manteve a ligação com Itu e passou a viajar pelo interior da província procurando o assunto das telas na roça, nas casas de taipa, nos caminhos de terra.
O tema já tinha aparecido antes. Em 1888 ele expôs Caipiras Negaceando, com dois homens à espreita no mato, e a crítica do Rio recebeu com desconforto a ideia de figura rural do interior paulista ocupando o espaço da grande pintura.
Em 1893 veio a tela do rolo de fumo, e com ela a mudança de escala. Não é mais um grupo em paisagem, é uma figura única, isolada, de corpo inteiro, no formato de retrato solene, tratada com o acabamento que o mercado reservava a quem pagava caro por ser retratado.
O material era observado de perto. Os tipos vinham de gente da região, as roupas e os objetos eram os de uso corrente, e a arquitetura de barro pintada ali é a das casas do interior paulista da época.
A técnica também mudou de mão. A pincelada ficou mais solta que a do ateliê parisiense, a matéria da tinta aparece na parede e na palha, e a luz deixou de ser a iluminação teatral de estúdio para virar claridade de porta aberta em dia de sol.
A recepção paulista foi favorável e a carioca ficou dividida. O eixo oficial da arte brasileira estava na capital do Império recém-virado República, e um pintor que escolhia morar em São Paulo e pintar lavrador ficava fora da rota das grandes encomendas.
A obra entrou depois para o acervo da Pinacoteca de São Paulo, criada em 1905, e virou peça central da coleção brasileira do século XIX. O pintor não viu essa consagração: a vida dele terminou em 1899, em Piracicaba.
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Nada o esmove.
Monteiro Lobato, Urupês, 1914
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