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A taça de vidro que fez de um aguadeiro um rei

Diego Velázquez, O Aguadeiro de Sevilha, c. 1620, Apsley House, Londres

O Aguadeiro de Sevilha, de Velázquez: velho aguadeiro de perfil entrega a um menino uma taça de vidro com um figo

O Aguadeiro de Sevilha, Velázquez, c. 1620

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Uma taça de vidro fino, transparente, do tamanho de uma mão aberta. Dentro dela, um figo escuro boia no fundo da água. A fruta estava ali para perfumar e adoçar o que se bebia nas ruas quentes de Sevilha, e é a peça mais clara de uma tela de pouco mais de um metro de altura.

Quem segura a taça é um velho de capa marrom, gasta e rasgada no ombro. Quem recebe é um menino de gola branca. Entre os dois, a mão do velho e a mão do menino quase se tocam sobre o vidro.

A tela se chama O Aguadeiro de Sevilha. Foi pintada por volta de 1620 por Diego Velázquez, nascido em Sevilha em 1599. Ele tinha pouco mais de vinte anos e ainda não era o pintor da corte de Madri que o mundo conheceria depois.

O aguadeiro era um dos ofícios mais baixos da cidade. Carregava um cântaro de barro nas costas, enchia nas fontes e vendia a água a goles, de porta em porta, no calor do verão andaluz. Ninguém pagava retrato para um homem desses.

Velázquez pintou mesmo assim. E pintou com a seriedade que a pintura da época guardava para santos, reis e cardeais: fundo escuro, figura grande, luz forte vinda de um lado só, rosto em silêncio.

A tela viajou mais que o próprio aguadeiro. Saiu de Sevilha para Madri, entrou na coleção do rei da Espanha, foi enrolada na bagagem de um rei francês em fuga e terminou numa casa de Londres, onde está até hoje.

Esta edição percorre três caminhos: o que está pintado na tela, a viagem que ela fez entre Sevilha e Londres, e por que um vendedor de água ganhou o tratamento de nobre.

O primeiro caminho começa pela capa do velho, e pelo jeito como ela segura a luz.

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I  O Que Você Vê

Um rosto de perfil contra o escuro

O aguadeiro ocupa a metade esquerda da tela, quase da altura dela. Está de perfil, o rosto marcado por rugas fundas, a testa alta, a barba rala e grisalha. Os olhos estão baixos, fixos na taça, e a boca está fechada.

A luz entra pela esquerda e bate em cheio nesse rosto. O resto do corpo afunda numa capa marrom de tecido grosso, com um rasgo aberto no ombro. Velázquez não escondeu o rasgo: pintou a fibra puxada, a dobra pesada, o pano que já viu muito sol.

Na frente do velho, encostado na borda da tela, está o cântaro grande de barro. A superfície tem gotas de água escorrendo, cada uma com o próprio brilho. Ao lado, numa mesa, há uma jarra menor vidrada com uma caneca em cima.

A taça no centro

O ponto mais claro do quadro é a taça. O vidro pega a luz pelas bordas, e por dentro se vê o figo escuro e a água que o cerca. Velázquez pintou a transparência com poucos toques de branco, sem contorno duro.

A mão do velho segura o pé da taça. A mão do menino se estende para receber. Nenhum dos dois sorri, nenhum faz pose de mercado. A troca acontece em silêncio, como um gesto que pede atenção.

O terceiro rosto

Atrás dos dois, quase sumido na sombra, aparece um terceiro homem, mais jovem, bebendo de uma caneca. Ele ganha pouca luz e pouco espaço. Fica ali como lembrança de que o aguadeiro atende a rua inteira.

O menino tem a pele clara, a gola branca engomada e os olhos baixos, como os do velho. Os dois olham para o mesmo ponto: a taça. O olho de quem está diante da tela faz o mesmo caminho, do rosto do velho ao vidro, e do vidro ao rosto do menino.

Esse tipo de quadro tinha nome na Espanha da época: bodegón, a pintura de cozinha e taberna, com comida, louça e gente simples. Era um gênero de pouco prestígio. O jovem pintor de Sevilha pegou o gênero baixo e deu a ele a pose de um retrato oficial.

A dignidade do aguadeiro mora em três lugares que dá para apontar com o dedo: o perfil firme, recortado contra o escuro como numa medalha; a luz que escolhe o rosto dele antes de qualquer outro; e o figo na taça, um cuidado de ofício que ele oferece como quem oferece um presente.

 
 

II  A História Por Trás

De Sevilha a Apsley House

Velázquez aprendeu o ofício em Sevilha, no ateliê do pintor Francisco Pacheco, com quem trabalhou a partir de 1611. Em 1618, casou com a filha do mestre, Juana Pacheco. Os bodegones desses anos são a obra de um rapaz que ainda pintava a rua em volta dele.

Em 1623, Velázquez foi chamado a Madri e virou pintor do rei Filipe IV. O Aguadeiro foi junto para a capital. A tela passou pelas mãos de Juan de Fonseca, capelão do rei e protetor do pintor, e depois entrou na coleção real, onde ficou por quase dois séculos.

O sogro escreve sobre o genro

Pacheco deixou um registro escrito dessa fase. No tratado Arte de la pintura, publicado em 1649, ele defendeu os bodegones do genro e disse que, pintados como Velázquez os pintava, mereciam toda estima. A frase pesa porque vinha de um mestre que valorizava acima de tudo a pintura de tema religioso.

Antonio Palomino, pintor e biógrafo, voltou à tela em El Parnaso español pintoresco laureado, de 1724. Contou que o Aguadeiro era tão admirado que tinha sido guardado no palácio do Buen Retiro, uma das residências do rei em Madri.

A bagagem de José Bonaparte

Em 1808, Napoleão pôs o irmão, José Bonaparte, no trono da Espanha. Cinco anos depois, com o exército francês em retirada, José saiu de Madri levando carroças cheias de quadros da coleção real, muitos tirados das molduras e enrolados.

Em 21 de junho de 1813, na batalha de Vitória, no norte da Espanha, as tropas do Duque de Wellington derrotaram os franceses. A bagagem do rei em fuga ficou para trás, e no meio dela estavam cerca de duzentas pinturas, entre elas o Aguadeiro.

Wellington mandou as telas para Londres e escreveu ao governo espanhol oferecendo a devolução. A resposta chegou em 1816: o rei Fernando VII, de volta ao trono, agradeceu e disse que o duque podia ficar com elas, em reconhecimento pela guerra.

O Aguadeiro foi para Apsley House, a casa de Wellington no canto do Hyde Park, conhecida como Number One, London. A casa virou museu e a tela continua lá, na mesma coleção formada por um botim de guerra.

 

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III  Por Que Importa

A dignidade que não depende do posto

Num tempo em que pintura cara era encomenda de igreja ou de corte, Velázquez gastou a melhor luz num homem que vendia água a goles. A escolha não traz discurso nenhum escrito na tela. Ela está na pose e na luz.

O aguadeiro não aparece como piada nem como exemplo de pobreza para dar pena. Aparece como alguém que faz o próprio trabalho com cuidado, e esse cuidado vira o centro do quadro. O figo na água é prova disso: um detalhe de quem conhece o freguês.

O mesmo olhar trinta anos depois

Em 1650, já pintor famoso, Velázquez estava em Roma e retratou Juan de Pareja, seu assistente, um homem mouro que trabalhava como escravizado no ateliê. O retrato foi exposto no Panteão e, pelo relato de Palomino, foi aplaudido por todos os pintores que o viram.

Pareja aparece de meio corpo, com a cabeça erguida, a gola de renda, o olhar direto para quem olha. Muitos leram o retrato como o de um nobre. No mesmo ano, Velázquez assinou a carta que deu a Pareja a liberdade, e o assistente seguiu como pintor. A tela hoje está no Metropolitan Museum de Nova York.

Entre o Aguadeiro e Pareja passam três décadas, e o gesto se repete: o pintor dá a gente sem posto a mesma luz e a mesma gravidade dos retratos de rei. No aguadeiro, pelo perfil e pela taça. Em Pareja, pelo olhar de frente.

Onde o leitor vê a igualdade

O tema da igualdade social na escolha do modelo atravessa a obra de Velázquez. Ele pintou o rei, o papa Inocêncio X, os anões e os bobos da corte de Madri, e pintou todos com a mesma atenção ao rosto e à pele.

A escolha não fazia de Velázquez um rebelde. Ele queria subir na corte e conseguiu: virou cavaleiro da Ordem de Santiago em 1659, um ano antes do fim da vida. A igualdade estava no pincel, numa época em que a sociedade em volta dele separava gente pelo sangue e pelo título.

O Aguadeiro continua em Londres, numa sala de duque, cercado de retratos de generais. O vendedor de água de Sevilha divide a parede com eles e ganha a mesma luz.

Diante da tela, a escolha é de quem olha: ler o aguadeiro como um estudo de luz e textura, em que o velho é pretexto para o vidro, o barro e o pano, ou ler o aguadeiro como o retrato de um homem comum pintado com a gravidade de um rei. As duas leituras estão acima.

 
 
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Quiz da edição

No Aguadeiro de Sevilha, o que aparece boiando dentro da taça de vidro que passa da mão do velho pra mão do menino?

AUma rodela de limão
BUma pedra de gelo
CUm figo escuro
DUma oliva verde

Resultado da última edição: 91% acertaram.

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