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A pata extra do touro de Sargão

Touro alado de Khorsabad, gipsita, palácio de Sargão II, perto de 710 a.C., museu da Universidade de Chicago

Touro alado de pedra com cabeça humana barbada, tiara de chifres e asas, visto de lado num museu

Touro alado de Khorsabad, Universidade de Chicago

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Um casco de pedra a mais, esculpido na quina de um bloco de gipsita, a rocha macia de onde se tira o gesso. O bloco inteiro pesa mais de 40 toneladas, segundo o catálogo de destaques do Instituto Oriental da Universidade de Chicago publicado em 2019, e o casco sobrando prova que o escultor trabalhou para dois visitantes ao mesmo tempo.

O bloco é um touro alado com cabeça de homem, esculpido perto de 710 antes de Cristo pelos escultores da corte de Sargão II, rei da Assíria. Ele guardava uma porta do palácio de Dur-Sharrukin, a “Fortaleza de Sargão”, cidade cujas ruínas ficam sob a aldeia de Khorsabad, no norte do Iraque. Hoje está em Chicago.

Os assírios chamavam essas figuras de lamassu, que no acádio, a língua da corte assíria, quer dizer espírito protetor. Os lamassu ficavam nas portas de palácios e cidades, com rosto humano, corpo de touro, asas de ave e uma tiara de chifres, a marca de um ser divino.

Quem chegava à porta pela frente encontrava o animal plantado sobre as duas patas dianteiras, firme como um guarda. Quem passava pelo corredor da entrada via o corpo de perfil, com quatro patas em passo largo, andando junto com ele.

As duas vistas somadas pedem cinco patas, e o escultor esculpiu as cinco. De frente, as patas do lado ficam fora da vista. De lado, a segunda pata da frente some atrás da quina. Só na diagonal, olhando a quina, o truque aparece inteiro, com as cinco patas juntas.

A imagem deste email foi feita de lado, do jeito que o escultor previu para quem atravessava a porta. Antes da história do palácio e do rei, vale olhar o que a câmera pegou: a tiara, o rosto, as asas e as patas à vista.

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I  O Que Você Vê

Um rosto de frente num corpo de perfil

A imagem do email mostra o touro alado de Khorsabad que hoje fica no museu do ISAC, o Instituto para o Estudo das Culturas Antigas, nome que o Instituto Oriental de Chicago adotou em 2023. A câmera pegou o lado comprido do bloco, com o animal caminhando para a direita.

A pedra é bege-acinzentada, salpicada de pontinhos escuros, e a luz amarela da sala doura o relevo. Atrás dela aparecem uma parede laranja e um teto de vigas de madeira, e um cabo baixo preso em postes separa o público da peça.

A tiara de chifres

A cabeça é a parte mais saliente do bloco, quase solta da parede de pedra. Ela usa uma tiara alta, um gorro em forma de cilindro, com uma fileira de plumas retas no topo, como uma coroa de penas.

Chifres curvos nascem na base da tiara e sobem pela frente dela, abertos em forma de U. Uma faixa de rosetas, flores de pétalas redondas, contorna o gorro logo acima da testa, e uma franja de cachos miúdos emoldura o rosto.

O rosto que encara

O corpo anda para a direita, mas o rosto olha para fora da pedra, de frente para quem vê a foto. Os olhos são grandes e amendoados, com a íris marcada a cinzel. As sobrancelhas grossas quase se tocam acima do nariz reto, e a boca fechada tem os cantos levemente erguidos.

A barba começa em fileiras de cachos em espiral nas bochechas e no queixo e desce em mechas retas até um corte quadrado, na altura do peito. Dos dois lados do pescoço, massas arredondadas de cachos fazem as vezes de cabelo. Acima delas saem as orelhas, largas, que o catálogo do museu descreve como orelhas de touro.

Asas, pelo e escrita

Uma asa enorme nasce no peito e se abre para trás, ocupando a metade de cima da pedra. Penas curtas cobrem a base; depois vêm penas longas e retas, riscadas em espinha de peixe, que avançam até o canto esquerdo do bloco.

No dorso, uma faixa de pelos cai em franjas que terminam em cachos. Outra fileira de cachos corre pela barriga, do peito até a pata traseira, e a cauda desce em gomos encaracolados até perto do chão.

Embaixo aparecem quatro patas de cascos grossos. As duas traseiras estão afastadas uma da outra, e as duas dianteiras também: a postura de quem dá um passo. Um cordão em relevo, uma veia saltada, desce pela pata traseira que avança.

Entre as patas, debaixo da barriga, o fundo da pedra está coberto de linhas de escrita cuneiforme, os sinais em forma de cunha que os assírios gravavam na argila e na pedra. A quinta pata fica fora da foto: ela está na face estreita da frente, que a câmera não alcança deste ângulo.

 
 

II  A História Por Trás

A porta da sala do trono

Sargão II governou a Assíria de 721 a 705 antes de Cristo, num império que se estendia do atual Iraque ao litoral do Mediterrâneo. Na década anterior a 706 antes de Cristo, ele mandou erguer do zero uma capital nova, Dur-Sharrukin, a 20 quilômetros de Nínive.

Cartas assírias da época registram madeira, pedra e mestres de ofício trazidos de longe, alguns da Fenícia, a faixa de costa onde hoje fica o Líbano. Para atrair mão de obra suficiente, o rei perdoou as dívidas dos trabalhadores da construção. A corte se mudou para a cidade em 706 antes de Cristo, com obras ainda abertas.

Dois olhares, um bloco

O touro de Chicago guardava uma das portas da sala do trono, num pátio que os arqueólogos numeraram como Pátio VIII. A entrada reunia vários touros desse tipo e figuras gigantes de heróis segurando leões, um conjunto feito para impressionar quem chegava ao rei.

O catálogo de destaques do museu, de 2019, dá a anatomia exata: o touro tem três patas dianteiras e duas traseiras. A pata a mais é dianteira e fica no lado comprido, avançada, para completar o passo de quem é visto de perfil.

A solução se repete em touros e leões alados de outros palácios assírios, sempre esculpidos em quinas de porta, onde a figura tinha de servir a quem chegava e a quem já entrava.

A função desses guardas vem escrita por um neto de Sargão, o rei Assaradão: os touros “afastam a pessoa má, guardam os degraus e protegem o caminho do rei que os fez” (Assaradão, rei da Assíria, inscrição em prisma de argila, século 7 a.C.).

O texto virado para a parede

O touro leva dois textos em cuneiforme. O da face exposta, o que aparece entre as patas na foto, conta como Sargão construiu a cidade e pede aos deuses que castiguem quem a destruir. O segundo foi gravado no lado que encostava na parede e ficou escondido desde a instalação.

O texto escondido termina num desejo do rei: “os deuses que moram nesta cidade me concederam o dom duradouro de construir esta cidade e envelhecer nela” (Sargão II, inscrição do touro do Pátio VIII, Dur-Sharrukin, cerca de 710 a.C.).

O desejo não se cumpriu. Em 705 antes de Cristo, Sargão caiu em batalha na Anatólia, onde hoje fica a Turquia, e o corpo do rei nunca voltou para ser enterrado. O filho e sucessor, Senaqueribe, levou a corte para Nínive e largou a Fortaleza de Sargão inacabada. Para o catálogo de Chicago, o rei provavelmente nunca morou no próprio palácio.

 

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III  Por Que Importa

Do rio Tigre a Chicago

A cidade foi abandonada de vez com a queda do império assírio, um século depois, e ficou soterrada por mais de dois mil anos. Em 1843, o cônsul da França em Mossul, Paul-Émile Botta, cavava sem sorte nas ruínas de Nínive quando um camponês de Khorsabad contou que a aldeia dele ficava sobre pedras esculpidas.

Botta mandou cavar ali e encontrou salas forradas de relevos. Achou que tinha descoberto Nínive, e escavações posteriores mostraram o engano. As peças dele, desenhadas no local pelo pintor Eugène Flandin, chegaram a Paris em 1847, os primeiros grandes achados assírios a desembarcar na Europa.

O comboio de Qurnah

O sucessor de Botta no consulado, Victor Place, retomou as escavações em 1852 com o fotógrafo Gabriel Tranchand, num dos usos mais antigos da fotografia numa escavação. Uma foto de 1852 mostra os dois em pé junto de um touro alado ainda na porta do palácio.

Em maio de 1855, as caixas de Place desceram o rio Tigre num barco de carga e em quatro jangadas. Perto de Al-Qurnah, no sul do Iraque, piratas do rio atacaram o comboio, afundaram o barco principal e encalharam as jangadas. A maior parte da carga se perdeu na água, e buscas posteriores, entre elas uma expedição japonesa em 1971 e 1972, quase nada recuperaram.

Chicago, 1929

O touro da foto escapou do naufrágio porque seguia enterrado. Em 1929, a expedição do Instituto Oriental de Chicago, chefiada por Edward Chiera, estudioso de textos da Assíria, encontrou a peça diante da sala do trono, partida em três grandes pedaços. Os blocos cruzaram o oceano e foram remontados em Chicago, com restauração moderna em partes da pedra.

Os touros deixados no norte do Iraque tiveram outro destino. Em 2015, militantes do Estado Islâmico destruíram exemplares em sítios assírios e no Museu de Mossul, e houve relatos de saque nas ruínas de Khorsabad.

O passo de quem olha

As cinco patas mostram um escultor que planejou a obra pelo caminho do visitante. A pedra fica parada e a pessoa caminha; a postura do touro muda conforme ela atravessa a porta, um efeito de movimento feito sem nenhuma peça móvel.

A figura também sobrevive fora dos museus. O povo assírio de hoje usa o touro alado como símbolo da própria origem, e entre 2018 e 2020 uma réplica feita pelo artista Michael Rakowitz com latas vazias de xarope de tâmara, produto típico do Iraque, ocupou um pedestal da Trafalgar Square, em Londres. Ela recriava um lamassu de Nínive destruído em 2015.

A obra está em domínio público, como toda peça da Antiguidade, e a imagem dela circula livre.

Parar de frente para a pedra e encontrar o guarda imóvel que barra a porta, ou caminhar rente ao lado comprido e seguir com o touro em passo de cortejo rumo ao trono. As duas leituras estão acima, apoiadas na mesma quinta pata.

 
 
Quiz da edição

Segundo o catálogo do museu de 2019, qual é a configuração exata de patas esculpidas no touro de Khorsabad?

A2 dianteiras e 3 traseiras
B4 dianteiras e 1 traseira
C3 dianteiras e 2 traseiras
D1 dianteira e 4 traseiras

Resultado da última edição: 55% acertaram.

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