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A cidade foi abandonada de vez com a queda do império assírio, um século depois, e ficou soterrada por mais de dois mil anos. Em 1843, o cônsul da França em Mossul, Paul-Émile Botta, cavava sem sorte nas ruínas de Nínive quando um camponês de Khorsabad contou que a aldeia dele ficava sobre pedras esculpidas.
Botta mandou cavar ali e encontrou salas forradas de relevos. Achou que tinha descoberto Nínive, e escavações posteriores mostraram o engano. As peças dele, desenhadas no local pelo pintor Eugène Flandin, chegaram a Paris em 1847, os primeiros grandes achados assírios a desembarcar na Europa.
O comboio de Qurnah
O sucessor de Botta no consulado, Victor Place, retomou as escavações em 1852 com o fotógrafo Gabriel Tranchand, num dos usos mais antigos da fotografia numa escavação. Uma foto de 1852 mostra os dois em pé junto de um touro alado ainda na porta do palácio.
Em maio de 1855, as caixas de Place desceram o rio Tigre num barco de carga e em quatro jangadas. Perto de Al-Qurnah, no sul do Iraque, piratas do rio atacaram o comboio, afundaram o barco principal e encalharam as jangadas. A maior parte da carga se perdeu na água, e buscas posteriores, entre elas uma expedição japonesa em 1971 e 1972, quase nada recuperaram.
Chicago, 1929
O touro da foto escapou do naufrágio porque seguia enterrado. Em 1929, a expedição do Instituto Oriental de Chicago, chefiada por Edward Chiera, estudioso de textos da Assíria, encontrou a peça diante da sala do trono, partida em três grandes pedaços. Os blocos cruzaram o oceano e foram remontados em Chicago, com restauração moderna em partes da pedra.
Os touros deixados no norte do Iraque tiveram outro destino. Em 2015, militantes do Estado Islâmico destruíram exemplares em sítios assírios e no Museu de Mossul, e houve relatos de saque nas ruínas de Khorsabad.
O passo de quem olha
As cinco patas mostram um escultor que planejou a obra pelo caminho do visitante. A pedra fica parada e a pessoa caminha; a postura do touro muda conforme ela atravessa a porta, um efeito de movimento feito sem nenhuma peça móvel.
A figura também sobrevive fora dos museus. O povo assírio de hoje usa o touro alado como símbolo da própria origem, e entre 2018 e 2020 uma réplica feita pelo artista Michael Rakowitz com latas vazias de xarope de tâmara, produto típico do Iraque, ocupou um pedestal da Trafalgar Square, em Londres. Ela recriava um lamassu de Nínive destruído em 2015.
A obra está em domínio público, como toda peça da Antiguidade, e a imagem dela circula livre.
Parar de frente para a pedra e encontrar o guarda imóvel que barra a porta, ou caminhar rente ao lado comprido e seguir com o touro em passo de cortejo rumo ao trono. As duas leituras estão acima, apoiadas na mesma quinta pata.
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