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A órbita vazia do busto de Nefertiti

Busto de Nefertiti, calcário e estuque pintado, oficina de Tutmés em Amarna, Neues Museum, Berlim

Busto pintado da rainha Nefertiti com coroa azul de topo reto e colar colorido

Busto de Nefertiti, Neues Museum, Berlim

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Um disco polido de cristal de rocha, com a pupila pintada de preto no fundo, encaixado numa cabeça de calcário de 48 centímetros. Do outro lado do nariz, no lugar do par, sobra só a pedra crua da órbita.

A cabeça é o busto de Nefertiti, rainha do Egito, esculpido perto de 1345 antes de Cristo na oficina do escultor Tutmés, em Amarna. Hoje ele ocupa sozinho uma sala do Neues Museum, em Berlim, na Alemanha, sob luz baixa e vigia constante.

O olho esquerdo nunca apareceu. A órbita não guarda resto de cola, marca de encaixe ou lasca de cristal. É uma cavidade limpa, do jeito que a ferramenta do escultor deixou a pedra.

O arqueólogo alemão Ludwig Borchardt tirou o busto do chão em dezembro de 1912. Segundo o relato dele, a equipe revirou o entulho da sala atrás do pedaço que faltava e não encontrou nenhum fragmento.

O resto da peça chegou quase inteiro. Faltavam o olho, pedaços das orelhas e a cabeça da cobra na coroa, e a pintura conservava cores de mais de 3.200 anos, com o azul e o vermelho ainda vivos sob a poeira.

Uma rainha pintada com tanto cuidado, até o traço preto que alonga o canto do olho, deixada com um olho só. Para os estudiosos de Amarna, a falha não tem cara de descuido: o escultor sabia fazer o segundo olho, porque fez o primeiro com perfeição.

Três explicações disputam o caso. A mais aceita depende do lugar onde o busto estava: não num túmulo, nem num templo, mas numa sala de oficina, cercado de rostos de gesso inacabados e de blocos de pedra à espera do cinzel.

Antes da história, a peça, do jeito que a imagem deste email a mostra: a coroa, a pintura e o único olho de cristal.

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I  O Que Você Vê

A coroa azul de topo reto

A imagem do email mostra o Busto de Nefertiti, retrato da grande esposa real do faraó Akhenaton, feito pelo escultor Tutmés em calcário coberto de estuque (uma camada fina de gesso) e pintado à mão.

A rainha aparece do peito para cima. O pescoço é longo e avança um pouco para a frente, como se a cabeça pesasse mais do que o corpo. Os ombros terminam num corte reto, que serve de base para a peça ficar de pé.

A coroa sem dono

Na cabeça, ela usa uma coroa alta, azul, com o topo cortado em linha reta. Uma faixa dourada contorna a coroa na altura da testa e sobe pelas laterais, com pedrinhas coloridas pintadas no meio do ouro.

Esse modelo de coroa só aparece em imagens de Nefertiti. Nenhuma outra rainha do Egito foi retratada com ela, e por esse motivo os egiptólogos usam a coroa para reconhecer a rainha em relevos onde o rosto se perdeu.

Na frente da coroa, logo acima da testa, há o toco quebrado de uma naja erguida, o símbolo de proteção dos reis egípcios. A cabeça da cobra se partiu antes de o busto sair do chão.

O colar de pétalas

Sobre o peito, um colar largo desce em faixas. Cada faixa tem uma cor: verde, vermelho, azul e dourado, numa sequência de pétalas e folhas desenhadas uma a uma, como se fossem contas reais enfiadas num fio.

A pele do rosto e do pescoço recebeu um tom marrom claro, quase rosado. Os lábios são vermelhos, cheios e fechados. As sobrancelhas e o contorno dos olhos foram pintados de preto, com o traço alongado para fora, a maquiagem que os egípcios usavam contra o sol e contra infecção.

Um olho de cristal, uma órbita lisa

O olho direito da rainha é a parte mais trabalhada. Tutmés encaixou na cavidade um disco de cristal de rocha, um quartzo transparente, e pintou a pupila de preto por trás dele. Com a luz de frente, o cristal brilha como um olho úmido.

Do lado esquerdo do rosto, a órbita ficou sem o disco. O fundo é a pedra branca, lisa, sem cor. A sobrancelha e o traço preto em volta estão pintados por inteiro, como se o olho estivesse ali.

O rosto é simétrico, de maçãs altas e queixo firme, sem nenhuma ruga visível na superfície. A camada de estuque esconde a pedra de baixo, e a pedra de baixo, como a seção seguinte mostra, conta outra história.

 
 

II  A História Por Trás

Uma prateleira na casa de Tutmés

Akhetaton, que quer dizer "Horizonte de Aton", foi a capital erguida pelo faraó Akhenaton em pleno deserto egípcio, perto de 1346 antes de Cristo. Aton era o disco solar, o único deus que o faraó mandou adorar. Hoje as ruínas da cidade levam o nome árabe de Amarna.

A cidade durou pouco. Depois da morte de Akhenaton, a corte voltou para Tebas, os templos da capital ficaram vazios, e os artistas saíram levando o que conseguiam carregar.

A sala trancada

Em 1912, a Sociedade Oriental Alemã escavava Amarna sob o comando de Ludwig Borchardt. A equipe chegou a uma casa grande com pátio, salas de trabalho e restos de pedra esculpida. Numa peça de marfim achada ali, uma inscrição dava o dono: "o escultor Tutmés, chefe das obras".

Numa sala pequena da casa, os trabalhadores acharam mais de vinte peças de gesso e pedra: rostos de homens e mulheres da corte, alguns sem terminar. O busto estava de cabeça para baixo no chão, onde provavelmente caiu quando a prateleira de madeira apodreceu.

Borchardt anotou o achado no diário da escavação. "Descrever não adianta, é preciso ver" (Ludwig Borchardt, diário da escavação de Amarna, 1912). A frase virou a mais citada da história da peça.

Por que um olho só

A primeira explicação diz que o busto era um modelo. Tutmés teria feito a cabeça para servir de molde aos aprendizes e aos outros escultores da oficina, que copiavam o rosto oficial da rainha para estátuas e relevos. Um modelo não precisava dos dois olhos: um bastava para ensinar o desenho.

A segunda diz que a peça ficou sem terminar quando a cidade foi abandonada. A terceira, menos aceita, fala de um olho perdido em algum acidente. Contra ela pesa a órbita limpa, sem resto do material que prendia o cristal do lado direito.

A teoria do modelo tem o apoio do lugar: o busto estava numa sala de trabalho, nunca foi para um túmulo ou templo, e a oficina guardava outras peças de estudo. Nenhum documento de Amarna confirma a intenção de Tutmés. Ela segue como a hipótese mais forte, sem prova escrita.

A divisão das peças

Na época, as escavações estrangeiras dividiam os achados com o Serviço de Antiguidades do Egito, numa partilha feita por um inspetor. Em janeiro de 1913, o busto entrou no lote alemão e viajou para Berlim.

Até hoje se discute se o inspetor viu a peça com clareza. O busto foi mostrado ao público só em 1924, e o Egito pediu a devolução logo depois. O pedido se repete desde então, e a Alemanha nunca aceitou.

 

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III  Por Que Importa

O rosto debaixo do gesso

Em 2006, o radiologista Alexander Huppertz, do Imaging Science Institute de Berlim, passou o busto por uma tomografia. O estudo saiu em 2009 na revista Radiology e mostrou o que a camada de estuque escondia.

Por baixo da pintura, Tutmés esculpiu um rosto de calcário com marcas que a superfície final apagou: pequenas rugas nos cantos da boca, uma saliência no nariz e as bochechas menos cheias. Depois, cobriu tudo com gesso e alisou.

A rainha corrigida

O escultor tinha nas mãos duas versões da mesma mulher e escolheu a mais lisa para mostrar. A pedra guarda o retrato mais próximo da pessoa; o estuque guarda a imagem oficial, a que a corte de Akhenaton queria espalhar pelo reino.

A tomografia não resolveu o olho. Ela confirmou que a órbita esquerda tem o mesmo acabamento de pedra do resto do busto, sem o encaixe preparado do lado direito. A ausência estava ali desde a oficina.

Um rosto copiado pelo mundo

A vida de Nefertiti deixou poucos registros. Ela aparece junto do marido em relevos de Amarna, oferecendo flores ao disco solar, e some dos registros perto do décimo segundo ano do reinado. Ninguém achou o túmulo dela, e a data da morte segue desconhecida.

O busto ficou mais famoso do que a rainha. Desde 1924 ele virou selo, cartaz, capa de revista e símbolo de beleza, e as cópias de gesso vendidas nas lojas de museu repetem quase sempre o mesmo detalhe: os dois olhos pintados. A cópia corrige o original.

A rainha virou também uma figura de disputa. Para o Egito, o busto é patrimônio levado numa partilha mal feita; para o museu de Berlim, é um achado dividido dentro da lei da época. As duas posições aparecem no debate público há mais de um século, e a peça continua na mesma vitrine.

O olho que o museu não pôs

O Neues Museum, reaberto em 2009 depois de décadas em reforma, preferiu manter o busto do jeito que saiu de Amarna. A órbita esquerda segue vazia, e nenhum restaurador recebeu a tarefa de completar o par.

O busto está em domínio público, como toda obra da Antiguidade, e a imagem dele circula livre.

Um modelo de oficina, feito com um olho só para ensinar o rosto da rainha aos aprendizes, ou uma obra interrompida quando a corte deixou Amarna e Tutmés largou o cinzel. As duas leituras estão acima, apoiadas na mesma órbita lisa.

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, em que ano o busto de Nefertiti foi mostrado ao público pela primeira vez?

A1912, ano em que Borchardt encontrou a peça
B1913, ano em que o busto entrou no lote alemão
C1924
D2006, ano da tomografia de Huppertz

Resultado da última edição: 78% acertaram.

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