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Muitos monumentos medievais famosos viraram ruína ou museu. Bete Giyorgis continua sendo uma igreja, com padres, missa e calendário de festas.
Ela pertence à Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo (tewahedo quer dizer unidade, em ge'ez), uma das igrejas cristãs mais antigas do mundo, oficial no reino de Axum desde o século 4.
A fé que desce o poço
Os padres guardam lá dentro cruzes processionais de metal e manuscritos em pergaminho. Os fiéis entram descalços, como em todas as igrejas etíopes.
Na festa de Genna, o Natal etíope, celebrado em 7 de janeiro, peregrinos de todo o país chegam a Lalibela vestidos de branco e passam a noite em vigília nas bordas dos poços.
O primeiro europeu a descrever
O padre português Francisco Álvares esteve em Lalibela na década de 1520, com uma embaixada enviada pelo rei de Portugal ao imperador da Etiópia.
No livro Verdadeira Informação das Terras do Preste João das Índias, de 1540, ele descreveu as igrejas uma a uma e parou no meio: “Canso-me de escrever mais destas obras, porque me parece que não me hão de dar crédito.”
Álvares tinha razão em temer a dúvida. Durante séculos, leitores europeus trataram o relato como exagero de viajante.
O método ao contrário
Construir quase sempre significa somar: pedra sobre pedra, tijolo sobre tijolo. Em Bete Giyorgis, cada parede é o que sobrou depois de tirar o resto, como numa escultura.
O método exige um plano completo antes do primeiro golpe. Uma janela fora do lugar não se desmancha; uma coluna cortada fina demais não se engrossa.
Por esse motivo, a igreja é estudada como obra de arquitetura e de escultura ao mesmo tempo, e o nome dos talhadores não ficou registrado em nenhuma pedra.
O desgaste e o futuro
O tufo que facilitou o corte também sofre com a água. A chuva infiltra pelas fissuras, e a erosão apaga aos poucos as marcas de ferramenta.
Por volta de 2008, coberturas metálicas foram instaladas sobre outras igrejas de Lalibela para protegê-las da chuva. Bete Giyorgis, mais conservada, segue a céu aberto.
Feita há mais de oito séculos, a igreja não tem dono de direito autoral, e as fotos dela circulam livres.
Uma obra planejada inteira no reinado de um rei que queria a sua Jerusalém, ou o último capítulo de gerações de talhadores sem nome, como lê David Phillipson? As duas versões estão acima, cada uma com as suas pistas.
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